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O curador responde: seis questões sobre o Festival de Brasília e o cinema brasileiro

Por Maria Carolina Maia - 23 nov 2010, 16h20

Fernando Adolfo, 63, atua na curadoria do Festival de Brasília, que começa nesta terça e segue até a próxima, desde a primeira edição do evento, de 43 anos. Ele viu o festival, um dos mais antigos do país, ser idealizado pelo crítico Paulo Emílio Salles Gomes sob o conceito da inovação. Mas reconhece que em 2010 o festival foi além nesse sentido. Dos seis diretores que concorrem na categoria longa-metragem, apenas dois já foram vistos no circuito comercial e de festivais, e mesmo assim são pouco conhecidos do público: Eryk Rocha, de Pachamama, e João Jardim, de Janela da Alma. E reconhece, também, que essa é uma forma de diferenciar o evento, o último grande festival do ano no Brasil, dos demais. Confira o que diz Fernando Adolfo ao site de VEJA em seis questões.

O Festival de Brasília fecha o calendário de grandes eventos do cinema no país em 2010. O que ele aponta para o ano que vem?

O evento aponta um novo horizonte para o cinema brasileiro, possibilitado pelas novas tecnologias de produção, que possibilitam o barateamento dos filmes e possibilitam o surgimento de novos talentos como os selecionados para o Festival de Brasília. O cinema brasileiro está numa trajetória ascendente. Eu vejo com grande otimismo as próximas edições do evento. A quantidade de filmes que estão sendo produzidos é enorme.

Por que apostar em diretores novos e experimentais?

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Dos 38 longas inscritos, 21 eram inéditos. Essa amostragem nos levou a considerar a possibilidade de tomar o ineditismo como regra de escolha dos filmes da competição. Foi uma tendência que apareceu durante a seleção dos longas, não uma ideia pré-concebida. Na competição, temos seis diretores que estão estreando na direção de longas de ficção. Essa foi também uma maneira de diferenciar o Festival de Brasília dos outros que já aconteceram este ano, uma forma de não repetir os outros e fortalecer o evento, diferenciando-o. Estamos indicando um novo caminho para o cinema brasileiro, mas não para o festival, a próxima edição do evento pode ser diferente.

Por que abrir e fechar o festival com filmes antigos – Lílian M: Relatório Confidencial (1975), de Carlos Reichenbach, e Os Deuses e os Mortos (1970), de Ruy Guerra – se o foco da competição cairá sobre os diretores estreantes?

O Festival de Brasília tem uma tradição de homenagear o cinema brasileiro. O Carlão é um dos cineastas mais ativos em Brasília, como concorrente e como apoiador. Ele tem uma obra significativa, com um olhar próprio sobre o Brasil. Além disso, o festival tem a proposta de recuperar cópias, promovendo o resgate técnico de filmes importantes como Os Deuses e os Mortos (1970), de Ruy Guerra, que estava praticamente perdido, porque havia uma única cópia, quase destruída, e teve sua restauração feita por um laboratório com apoio do festival.

Que contribuição esses clássicos podem dar aos jovens diretores?

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Primeiro, a convivência com os cineastas já consagrados e experimentados, que possibilita um enriquecimento imenso. Nós estamos levando uma nova geração ao palco, junto com os veteranos, que são professores de cinema, inclusive. Além disso, a exibição dos filmes resgatados pode dar visibilidade ao evento, por conseqüência, aos jovens diretores que participam dele.

O que significa inovar no cinema, hoje?

Um caminho para inovar pode ser fazer um cinema autoral, com visão própria, mas também dirigido a uma discussão com o público. Fazer um filme que leve o espectador a uma reflexão, que faça com que ele saia da sala escura dialogando com o longa por um certo tempo. É fazer cinema-cabeça.

Este é o ano de Tropa de Elite 2 ou de Chico Xavier no cinema?

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De Tropa de Elite, é claro, porque é um fenômeno comercial e porque trata de um problema social. O povo brasileiro vê naquele filme um herói que faz por ele o que ninguém mais faz e o que o próprio espectador não pode fazer. É realmente fantástico como o público vê no filme a solução de seus problemas.

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