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Machete reafirma a posição de coadjuvante de Robert Rodriguez

Dirigido por Ethan Maniquis e Robert Rodriguez o filme celebra referências do cinema exploitation dos anos 1970

Em Machete, Danny Trejo foi alçado à condição de protagonista da fita de mexploitation, a junção do cinema sensacionalista dos anos 1970 com o estereótipo mexicano consagrado por Hollywood.

Machete, dirigido por Ethan Maniquis e Robert Rodriguez, surgiu de um trailer falso exibido dentro do projeto Grindhouse (2007), uma parceria de Rodriguez e Quentin Tarantino que exalta filmes B de ação e exploitations setentistas – qualquer coisa entre Charles Bronson e Dario Argento, como prova Planeta Terror e À Prova de Morte, os dois filmes que compõem o projeto.

Atuava nesse falso trailer Danny Trejo, ator conhecido por monotemáticas e menores atuações chicanas em filmes como Desejo de Matar 4 (1987) e Um Drink no Inferno (1996). No filme real, Trejo foi alçado à condição de protagonista da fita de mexploitation, a junção do cinema sensacionalista com o estereótipo mexicano consagrado por Hollywood. Ele faz o papel de Machete, um ex-agente federal envolvido numa trama de vingança.

No prólogo onde Machete, um apreciador de armas brancas como a que dá nome ao filme, é apresentado ao espectador, Maniquis e Rodriguez promovem um derramamento de sangue que dá a exata ideia do que vem pela frente – as decapitações são tantas que lembram um levante jacobino.

A partir daí, orbitam em torno do protagonista, Rogelio Torrez (Steven Seagal), um mafioso mexicano em conluio com o senador americano John McLaughlin – uma atuação inspirada de Robert De Niro, com impagável sotaque texano – e seu assessor, Michael Booth (Jeff Fahey). Todos interessados em combater, por motivos nada republicanos, a imigração ilegal pela fronteira do México, onde o senador tem por hábito praticar tiro ao alvo contra imigrantes.

Derrotado por uma armadilha – ele é falsamente acusado de ter cometido um atentado -, que dá ainda mais força política ao dissimulado McLaughlin, Machete recebe suporte de um grupo que auxilia imigrantes ilegais, chamado ‘a rede’, uma organização chefiada por uma misteriosa justiceira conhecida como Shé. É Shé (Michelle Rodriguez), aparentemente uma insuspeita vendedora de tacos e burritos, que puxa o rosário de mulheres esplendorosas do filme, como Yvetta (Jessica Alba), investigadora da imigração, e April, papel autobiográfico de Lindsay Lohan: uma menina rica, mimada e sem nenhum parâmetro moral. Todas, nalguma altura do filme, se aliam a Machete, o improvável galã, na luta para esclarecer a cilada e vingar a morte da mulher – o motivo primeiro de tanto amargor.

Até que termine a missão de Machete, num catártico combate das forças antagônicas, o filme costura iconografia e menções de filmes B, de que Rodriguez já havia lançado mão na chamada trilogia Mariachi, com El Mariachi (1992), Desperado (1995) e Era Uma Vez No México (2003).

Mas há um detalhe inescapável. Tarantino, para ficar entre os pares de Rodriguez e Maniquis, é muito melhor cineasta do gênero. Tanto o roteiro quanto a direção, se comparados com À Prova de Morte (2007), filme da mesma estirpe, são capengas. A dupla filma mal a ação do filme, que em muitas sequências clama por dinamismo; escreve diálogos donde não se aproveita um bordão sequer, como é praxe nas produções do seu amigo mais talentoso, e falha até quando tenta enaltecer as musas.

A sequência de lap dance com Vanessa Ferlito diante de um impassível Kurt Russel em À Prova de Morte, com pouco mais de dois minutos, é melhor do que todas as aparições de Jessica Alba, Michelle Rodriguez e Lindsay Lohan – juntas – em Machete.

Pode-se alegar estilos diferentes, ou que Machete deve ser visto mais como chiste do que como cinema. É pouco e não justifica, tamanho o patente esforço de Rodriguez e Maniquis em juntar os cacos de suas referências cinematográficas numa história original, apesar do tom comedioso. Machete só confirma Rodriguez como um Tarantino de segunda categoria e, aprofundando um pouco mais as referências às grandes histórias de vingança, um Sam Peckimpah de quinta, contando uma piada de duas horas com três ou quatro gargalhadas por pura canastrice.

Assista ao trailer abaixo