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“Globo tem mentalidade aberta”, diz primeiro gay assumido à frente do ‘JN’

O goiano Matheus Ribeiro apresentará o principal telejornal da emissora, dentro do rodízio regional que marca os cinquenta anos da atração

Ser o mais jovem apresentador do JN e o primeiro gay assumido na função é um peso? Sou muito grato. A alegria que tenho como jornalista é poder conhecer realidades diferentes da minha. Não sou um profissional com muitos anos de carreira, tenho apenas 26 anos. É algo que eu não imaginava que pudesse acontecer tão rapidamente na minha vida. Espero poder representar muito bem o povo aqui de Goiânia.

Recentemente, uma foto sua ao lado de um militar levou seus seguidores nas redes a especular: ele é seu namorado? Sim, estamos juntos há oito meses. Nós nos conhecemos no Carnaval de Salvador deste ano. Yuri (Piazzarollo) é capitão da PM em Rondônia. Sempre recebi mensagens de seguidores falando sobre isso e tinha uma resposta pronta: minha vida particular não deveria ser um atrativo. Tenho o direito de me resguardar em algumas situações. Meu lado pessoal é pessoal, e ponto. O lado profissional é outra coisa.

Foi uma decisão dos dois tornar o relacionamento público? Sim, claro. É natural as pessoas terem curiosidade, mas houve situações que eu e Yuri achamos desrespeitosas. Alguns comentários envolvendo religião, Deus, dizendo que não éramos corretos. Sou um cara que tem uma fé muito viva. É preciso respeitar a liberdade religiosa. Estou muito bem com Deus. Ao postarmos aquela foto, nós tiramos o poder de qualquer pessoa de dizer maldades. Não tenho nada a esconder de ninguém. Isso me aliviou.

Assumir sua sexualidade não pôs em risco sua carreira na TV? Lá atrás, tinha receio de que, quando essa característica viesse a público, eu me prejudicasse. Felizmente, para minha grata surpresa, isso não ocorreu. A TV Anhanguera, onde trabalho, e a Globo têm uma mentalidade aberta para valorizar as competências, a despeito de qualquer outra característica. A maior contribuição que posso trazer é mostrar meu trabalho sem me prender a essa questão pessoal. Para combater a homofobia, não preciso ser hétero nem gay: preciso ser apenas humano.

Desde que foi anunciado como um dos apresentadores do JN, seu número de seguidores nas redes explodiu. Como lida com o assédio? De fato, tenho recebido mensagens do Brasil inteiro. Tento responder a todas, porque essa é a janela que tenho para falar com o público. Mas tenho uma história de vida que me faz brigar muito com a autoestima e a aparência. Fui obeso quando era criança e adolescente. Cheguei a pesar 110 quilos. Os colegas de escola me chamavam de “Boleus” (junção de “bola” e “Matheus”). Eu não era muito de sorrir, era tímido. Ainda tenho dificuldades para me achar bonito. É curioso essas pessoas que praticaram bullying comigo, na escola e na internet, me verem agora no JN.

 

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659