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Documentário faz homenagem à Hollywood turca

‘Remake, Remix, Rip-Off’ revela como funcionava a cultura da cópia no cinema da Turquia no século XX, onde filmes americanos eram 'matéria-prima'

“Todos os filmes são iguais. Há apenas 33 ou 34 histórias no mundo”, afirma um antigo cineasta turco no início do documentário Remake, Remix, Rip-off que fala, como explica o subtítulo brasileiro, “sobre a cultura da cópia e o cinema turco popular”. E bota cópia nisso. O diretor Cem Kaya se debruçou, com a ajuda da mulher e de um grupo de estudantes de cinema, sobre mais de mil dos 7 000 filmes produzidos na Turquia entre a década de 1940 e o ano de 1990, buscando traços em comum não só entre eles, mas com filmes americanos. Em alguns casos, há plágio de cenas e diálogos inteiros de produções hollywoodianas.

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“Eu já conhecia a maioria desses filmes. Nasci e fui criado na Alemanha, e a conexão que eu mantinha com a Turquia eram os filmes que pegava nas vídeo-locadoras turcas. Mas tive que ver muitos de novo, catalogar e procurar cenas específicas para o documentário”, conta Kaya, no Brasil para a exibição de seu longa no Festival do Rio.

Na tela, o público se diverte vendo trechos das versões locais para Quanto Mais Quente Melhor, Tarzan, Drácula, Rambo, Rocky e outros sucessos, alguns deles com efeitos especiais toscos, como os de ET, Guerra nas Estrelas e Super-Homem. Gelatina colorida, por exemplo, era usada como filtro da lente. Tiros de laser eram desenhados, um a um, sobre os negativos do filme, num exemplo máximo do princípio de que a necessidade é a mãe da invenção, ideia presente em diversos momentos do documentário. Há até um Carlitos e um Gordo e Magro turcos. “Vi ‘Por um Punhado de Dólares’ em uma semana e filmei minha versão na seguinte”, lembra um dos diretores entrevistados para o filme.

Os pastiches se multiplicavam principalmente por causa da política de direitos autorais no país. “Não é que não houvesse leis de direitos autorais. Mas o produtor tinha que ir lá na Turquia para registrar seu filme, o que, é claro, não acontecia. Hoje há um controle maior”, explica Kaya, para quem nada disso tirava a identidade absolutamente turca dos filmes. “Há esse mito da originalidade. Isso não existe, as culturas se inspiram umas nas outras desde sempre. Tudo é, de alguma forma, cópia de alguma coisa. O que há é um grande mercado de direitos autorais. Quantos filmes iguais a Rambo não foram feitos? Não estou defendendo tudo o que foi feito na Turquia no século passado, mas há filmes daquela época em que os diretores realmente conseguiram imprimir sua marca, e eu os amo. São filmes que revelam muito da Turquia e daquele momento histórico”, defende Kaya.

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Em Remake, Remix, Rip-Off, ele consegue homenagear os cineastas, atores e técnicos de Yesilçam – uma espécie de Hollywood turca que operou durante a segunda metade do século XX -, sem abdicar do humor. É difícil não rir ao acompanhar cenas conhecidas em versões kitsch. “Você pode fazer graça de uma coisa sem ser desrespeitoso. Precisa equilibrar a parte engraçada com a séria. E eu realmente adoro aqueles filmes”, diz ele, lembrando que os diretores turcos precisavam vencer a censura e a falta de recursos financeiros e materiais. Muitas vezes, não havia nem filme disponível para comprar, e eles precisavam ser contrabandeados. Além disso, era o que o povo gostava de ver. Como conta outro diretor, em depoimento no documentário, “Hoje em dia está todo mundo preocupado com a mensagem do filme e com os prêmios que ele vai ganhar. Naquela época, só duas perguntas importavam: quem é a estrela e quantas cenas de luta vai ter?”.

Remake, Remix, Rip-Off tem sessão com a presença de Cem Kaya nesta quinta-feira, dia 2 de outubro, às 16h, no cinema 1 do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil). Além disso, passa também no dia 8 de outubro, às 14h, no Oi Futuro Ipanema.