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De Billie Holiday a Pussy Riot: no front das canções de protesto

Assim como as russas do Pussy Riot, condenadas à prisão por canção crítica ao governo Putin, outros artistas emprestaram seu talento para a defesa de causas sociais e políticas

A iniciativa de transformar protestos em canções não é de vanguarda: ela é já uma tradição no meio musical, em que corajosas vozes, ao longo da história, se levantaram contra massacres sangrentos e governos despóticos. O caso Pussy Riot, a banda punk russa que foi condenada a dois anos de prisão por desfiar uma oração contra o presidente linha dura Vladmir Putin, foi, por isso, um espanto. A justificativa oficial é a de que a oração do grupo, feita dentro da catedral de Cristo Salvador, em Moscou, foi um ato de “vandalismo”. Mas não é a questão religiosa a verdadeira dor-de-cabeça para as autoridades da Rússia. A questão é que, na música, as integrantes do Pussy Riot pedem que Virgem Maria tire Putin do poder.

Para além de explicitar um posicionamento a respeito de determinado assunto e buscar justiça social, algumas canções de protesto ganharam status de documento histórico, já que são reflexo do momento político e social em que foram compostas. Entre os exemplos mais lendários, está Give Peace a Chance, lançada por John Lennon em 1969 e transformada em hino de pacifistas contrários à Guerra do Vietnã. Relembre outros exemplos abaixo.

‘Strange Fruit’

Em 1939, Billie Holiday empenhou sua emoção para traduzir musicalmente o horror que sentia diante dos casos de assassinatos e linchamentos por racismo que vigoravam nos Estados Unidos. Foi no palco de um café em Nova York que ela cantou, pela primeira vez, os versos de Strange Fruit, poema escrito pelo professor judeu Abel Meeropol. Mais tarde, a música se tornou um hino contra crimes raciais e uma marca da carreira da cantora.

‘Little Boxes’

A música escrita em 1962 pela cantora folk Malvina Reynolds expressa a sua indignação contra o conformismo social e político reinante entre os cidadãos americanos no pós-guerra. O título da canção se refere aos conjuntos habitacionais que passaram a se proliferar nos subúrbios americanos, “todos iguais, feitos com materiais de segunda-mão, como pequenas caixas”, conforme diz a letra. 

‘Cálice’

Em 1964, Gilberto Gil se juntou a Chico Buarque, então em sua melhor fase criativa, para dar uma cutucada forte na ditadura militar. O refrão polissêmico “Pai, afasta de mim esse cálice / De vinho tinto de sangue” podia tanto ser uma referência a um ritual católico — uma boa desculpa para escapar à censura — como às práticas de perseguição e tortura coordenadas pelos militares. Ao ser cantada, a palavra “cálice” tem a mesma sonoridade que “cale-se”. Precisa dizer mais?

‘Carcará’

A interpretação da música de João do Vale, em 1965, foi o ponto alto da estreia de Maria Bethânia como cantora, no lugar de Nara no show Opinião. Ainda na introdução da música, Bethânia recitava estatísticas tristes do Nordeste, como o número de atingidos pela seca ou de emigrantes da região. Depois, vinha a letra árida de Vale — “Carcará, pega, mata e come” –, que protestava contra a fome no Nordeste e a consequente onda migratória para o sul e sudeste do país.

‘Ponteio’

Violência, perseguição e também cultura popular, uma das bandeiras dos jovens que faziam oposição à ditadura, são os elementos presentes na canção vencedora do Festival da Record de 1967. “Era um, era dois, era cem / Era o mundo chegando e ninguém / Que soubesse que eu sou violeiro / Que me desse o amor ou dinheiro… / Era um, era dois, era cem / Vieram prá me perguntar: / ‘Ô, você, de onde vai / de onde vem? / Diga logo o que tem / Prá contar’…”, canta Edu Lobo.

‘Pra Não Dizer que Não Falei das Flores’

A música ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968 e logo caiu na boca do povo como um símbolo da resistência ao regime militar. O padrão poético da letra, com estrofes finalizadas sempre com o sufixo “ão”, denota queixa com relação à realidade política e social. Os militares censuraram a música até 1979. Depois disso, muitos intérpretes inseriram a canção em seu repertório, como a cantora Simone.

‘Give Peace a Chance’

O refrão cantado por John Lennon pela primeira vez em 1969 se tornou o hino dos pacifistas contrários à Guerra do Vietnã. Give Peace a Chance surgiu durante o segundo bed-in, espécie de performance protagonizada por Lennon e sua mulher Yoko Ono a favor da paz. O casal, em trajes íntimos, recebeu a imprensa no quarto do Hotel  Queen Elizabeth, em Toronto, no Canadá, onde ficaram hospedados por sete dias. Lennon repetia a frase “Give Peace a Chance” e Yoko sugeriu que ela poderia ser musicada. A canção foi gravada em 1º de junho, no quarto do hotel. 

‘God Save the Queen’

A banda punk faz uma sátira ao hino da Inglaterra na música que critica o regime monárquico vigente no país. Lançada em 1977, durante as comemorações do jubileu de prata da rainha Elizabeth II, a canção sugere que a dispendiosa monarquia é responsável pelas mazelas sociais no país. Os músicos foram presos ao tocar God Save the Queen durante passeio pelo rio Tâmisa, na semana das comemorações oficiais do 25º ano de reinado de Elizabeth II. 

‘Sunday Bloody Sunday’

Ao compor a música, Bono quis protestar contra o massacre deflagrado pelo exército britânico em janeiro de 1972. O ataque armado dos militares matou 14 católicos, representantes de uma minoria religiosa na Irlanda do Norte, que protestavam a favor dos direitos civis no país e marcou as disputas entre o governo britânico e o Exército Republicano Irlandês, conhecido pela sigla IRA. O movimento deu início às primeiras ações separatistas na Irlanda do Norte, dois anos antes do episódio batizado de “Domingo Sangrento”. Em 1983, ano de lançamento da música, um executivo da gravadora Universal exigiu que o grupo retirasse a palavra “bloody” (sangrento) da letra, pois não soava bem nas rádios. Bono e os demais integrantes do U2 não cederam à pressão e incluíram a canção na primeira faixa do disco War

‘American Idiot’

Lançado em 2004, o sétimo disco da banda Green Day é dedicado a criticar a sociedade americana. As faixas incluem ataques diretos ao governo do presidente George W. Bush (American Idiot) e contra a Guerra do Iraque, uma obra de Bush. O álbum recebeu sete indicações ao prêmio Grammy e foi eleito o melhor álbum de rock do ano.  

‘World Wide Suicide’

Logo após o lançamento de World Wide Suicide, em 2006, o vocalista Eddie Vedder declarou que fez a música em homenagem a Pat Tilman, jogador de futebol americano que abandonou a carreira para servir ao exército americano depois dos ataques às Torres Gêmeas, em 2001. Tilman foi morto durante combate no Afeganistão, em 2004. Vedder quis chamar atenção para as muitas vidas que foram interrompidas e afetadas pela Guerra do Iraque.

‘Let’s Impeach the President’

Na música lançada em 2006, Neil Young lista uma série de motivos pelos quais o povo americano deveria pedir o impeachment do então presidente George W. Bush. “Let’s impeach the president for lying / And leading our country into war” (“Vamos pedir o impeachment do presidente por ele ter mentido / E ter direcionado nosso país a uma guerra”), dizem os primeiros dois versos de Let’s Impeach the President. “Quis exercitar minha liberdade de expressão e dar voz às pessoas que pensam dessa forma.”