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A rainha dos raios

Elza Soares teve uma carreira de altos e baixos, mas sempre renasceu. Uma biografia, um musical e um documentário estão reafirmando sua importância

No Candomblé, Iansã (ou Oyá) é a senhora dos raios e das tempestades, uma divindade guerreira mais apaixonada, que tem o poder de se relacionar com o mundo dos mortos. Elza Soares é filha de Iansã. Os poderes guerreiros de sua orixá talvez se manifestem no dom para se reerguer e se reinventar depois de cada batalha perdida. “Nascemos com o poder de buscar o melhor para a nossa vida. Basta você querer”, diz ela, em entrevista a VEJA. Não foram poucas as intempéries sofridas pela intérprete definitiva de Se Acaso Você Chegasse. Passou por relações amorosas e casamentos tumultuados, perdeu quatro filhos e desenvolveu uma carreira brilhante mas acidentada, com muitos períodos de ocaso. Sempre deu a volta por cima.

Hoje, aos 88 anos, vive um momento de serena consagração. Ainda na ativa, faz um show em que revisita seus maiores sucessos na quarta-feira 14, em São Paulo. Nessa mesma semana, chega às livrarias, pela editora Leya, Elza, biografia escrita pelo jornalista Zeca Camargo. Um musical sobre sua vida está sendo exibido em São Paulo (foi preciso escalar sete cantoras para encarnar o furacão singular que é Elza Soares). Um documentário sobre a cantora, My Name Is Now Elza Soares, filmado pela diretora Elizabete Souza Campos há quase quatro anos, está afinal entrando em cartaz no circuito alternativo, oferecendo depoimentos de Elza intercalados a imagens de arquivo. Um segundo documentário já está em produção: a cargo do cineasta Eryk Rocha, pretende mostrar o dia a dia da artista — e de Conceição, o alter ego criado por Elza, que gosta de conversar consigo mesma. Também está se anunciando uma cinebiografia estrelada por Taís Araújo.

A vida de Elza Soares renderia vários contos de A Vida Como Ela É, série sobre tragédias domésticas dos subúrbios cariocas que Nelson Rodrigues publicava regularmente no jornal Última Hora. Já existia uma biografia de fôlego da cantora — Cantando pra Não Enlouquecer, de José Louzeiro, lançada em 1997 —, e sua relação com Garrincha está bem exposta em Estrela Solitária, biografia do jogador publicada por Ruy Castro em 1995. O livro de Zeca Camargo é menos ambicioso: muito calcado em entrevistas com a biografada, traz episódios variados da vida de Elza enriquecidos por seus depoimentos. A apuração dos fatos não é tão rigorosa, e faz falta um confronto maior com as versões de outros envolvidos nos eventos narrados. Em compensação, o leitor chega perto de encontrar a vivacidade de uma conversa cara a cara com a artista.

A certa altura, Elza diz a Camargo que não quer ser retratada como santa. “Vim ao mundo para pecar e ser perdoada.” De todos os seus relacionamentos amorosos — a começar pelo primeiro casamento, com um marido violento, quando ela tinha apenas 13 anos —, a união de duas décadas (de 1962 a 1982) com Garrincha é o que ela lembra com mais carinho. Sim, estão no novo livro as bebedeiras do jogador, as decepções que Elza sofreu, a fúria que a união causou na sociedade (o romance começou quando Garrincha era casado com outra mulher), mas descritas com um tom compassivo, que busca justificativas para as eventuais brutalidades do esportista. Há outros depoimentos poderosos: Elza conta de seu vício em cocaína, que teria começado depois que Garrinchinha (seu único filho com Garrincha) morreu num acidente automobilístico, em 1986. O tema também é abordado, com menos detalhe, no documentário My Name Is Now Elza Soares.

Elza Gomes da Conceição foi salva pela música. Em 1953, quando um dos filhos de seu primeiro casamento sofria de graves problemas de saúde e faltava dinheiro para seus remédios, Elza foi participar do programa de calouros de Ary Barroso, na rádio Tupi, esperando o prêmio em dinheiro. O desprezo meio jocoso com o qual Barroso tratou a candidata (“De que planeta você veio, minha filha?”, ele perguntou) desapareceu depois que ela cantou. “Nasce uma estrela”, decretou o compositor de Aquarela do Brasil. Elza é um colosso do canto, uma união inigualável de voz, senso rítmico e carisma. Brilha tanto em canções animadas (como a exemplar Se Acaso Você Chegasse) quanto em músicas que pedem mais densidade emocional — sua versão de O Meu Guri, de Chico Buarque, é tocante. E nunca parou no tempo: “Elza é uma pessoa de vanguarda, contemporânea, que sempre pede uma guitarra cada vez mais doida”, celebra Guilherme Kastrup, baterista e produtor de seus dois últimos discos. “Sou uma mulher apaixonada”, é como ela se define, sempre. Filha de Iansã.

Publicado em VEJA de 14 de novembro de 2018, edição nº 2608