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Vinda de banda da Mongólia ao Rock in Rio exigiu até ajuste diplomático

Mesmo sem o público entender uma palavra do que cantavam, rapazes do Nine Treasures foram ovacionados em palco dedicado à Ásia

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 28 set 2019, 23h04 - Publicado em 28 set 2019, 21h26

Neste sábado 28 era quase impossível passar pela Rock Street, um dos tradicionais espaços temáticos de alimentação e entretenimento do Rock in Rio, e não se surpreender com a cena a seguir. Cinco rapazes vestindo túnicas coloridas, munidos de guitarras convencionais, um bandolim e um tipo de violino praticamente desconhecido no Brasil, entoavam um rock’n roll em um idioma ininteligível, ovacionados por um público empolgadíssimo que, é claro, não cantava uma palavra.

Nem mesmo os rapazes do Nine Treasures, donos de mais de 100 milhões de visualizações no YouTube chinês, esperavam tamanho sucesso com o público tupiniquim. O grupo se apresentou nos dois primeiros dias de festival e encerra sua participação neste domingo (29). “A primeira metade do setlist foi desanimadora. A segunda foi surpreendente”, disse a VEJA o vocalista Askhan Avagchuud. Ele e os colegas são, na verdade, naturais da Mongólia.

O nome do grupo também evoca nove materiais celebrados em antigos poemas: ágata, âmbar, jade, pérola, coral, ferro, bronze, prata e ouro. O violino alternativo se chama “morinhuur” e é um dos mais tradicionais da região. O som, entretanto, é puro rock. “De propósito, evitei trazer bandas que tocassem canções extremamente locais, sem nenhuma conexão com o Ocidente. Ninguém iria curtir”, diz o curador do espaço Toy Lima.

A vinda do Nine Treasures para o Brasil, entretanto, exigiu uma série de arranjos tecnológicos — e até diplomáticos. “Tudo era mais complicado. Eles não usam WhatsApp, por exemplo. Tem um Google e um YouTube próprios. Por sorte, tinham o sonho de vir ao Brasil porque conheciam Sepultura”, conta Lima, que tomou o cuidado de não colocar os rapazes no mesmo fim de semana de um grupo que vem do Taiwan — província que anda em pé de guerra com a China, com quem a Mongólia já se acertou. “Melhor evitar o acidente cultural”, brinca o produtor.

O esforço valeu a pena para todos os lados. “Comi muito feijão preto e visitei praias maravilhosas”, contou Askhan. Para o artista visual Rick Fire, de 37 anos, veterano do Rock in Rio, os rapazes foram uma grata surpresa. “Vim para ver meu quarto show do Foo Fighters e passei aqui por acaso. Achei o som sensacional. A cultura asiática é riquíssima”, disse.

Além dos Nine Treasures, o palco da Rock Street Asia contou com apresentações de grupos de Bollywood (dança indiana) e de um grupo de pop ucraniano, representando a região da Eurásia. Os shows eram intercaladas por desfiles dos tradicionais dragões chineses. Não consta na programação nenhum agrado para os fãs de K-Pop. Lima justifica: “Não queríamos nada mainstream”.

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