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O Jimi Hendrix da batuta

Carismático e incendiário, o maestro venezuelano Gustavo Dudamel vem ao Brasil pela primeira vez para turnê em quatro cidades

Por Rodrigo Levino - 15 jun 2011, 15h31

Dono de uma cabeleira que lembra a do jogador de futebol colombiano Carlos Valderrama, ele dá ao posto que ocupa o brilho de um astro da música pop

Como é bom que existam na música erudita personagens como o venezuelano Gustavo Dudamel. Aos 30 anos, atualmente ocupando o posto de diretor musical de uma das principais orquestras do mundo, a filarmônica de Los Angeles, nos Estados Unidos, o maestro – que fará turnê no Brasil a partir desta quarta-feira (15) – lança uma lufada de jovialidade sobre uma arte sisuda por natureza, que tem na renovação de plateias o seu maior desafio.

Dudamel vem ao país pela primeira vez à frente da orquestra sinfônica Simon Bolívar, da qual já foi integrante. O conjunto é a face mais vistosa de um projeto social chamado Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela, criado em 1975 pelo músico e economista José Antonio Abreu. O Sistema, como é popularmente conhecido, dá a 350.000 crianças e adolescentes de 02 a 19 anos, em sua maioria oriundos da periferia, a oportunidade de enveredar pelo caminho artístico.

Mantido pelo governo do ditador Hugo Chávez (ele tinha de fazer alguma coisa certa), por doadores privados e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, ao custo de 40 milhões de dólares anuais, o Sistema financia 250 pequenas sinfônicas e as turnês da orquestra principal mundo afora. O nível de excelência na formação de novos músicos é impressionante. Isso se reflete na qualidade da orquestra principal, que deve executar no Brasil peças do seu repertório de resistência, com destaque para peças do austríaco Gustav Mahler, uma das especialidades de Dudamel.

Jóia rara – Gustavo Dudamel, de uma família de classe média, entrou para o projeto aos 16 anos. Aos 18 se tornou seu diretor musical. Um ano depois, excursionando pela Europa, chamou a atenção da crítica especializada e recebeu o aval de figurões da regência como italiano Claudio Abbado e o argentino Daniel Barenboim. Em 2005, depois de vencer o Gustav Mahler Conducting Prize, convidou Abbado para reger a Simon Bolívar na Venezuela. Convite aceito, seu cacife internacional cresceu mais ainda.

Teatral, comprometido, jovem, sobretudo talentoso (e dono de uma cabeleira que lembra a do jogador de futebol colombiano Carlos Valderrama), Dudamel é uma explosão. Exuberante quando rege, seja qual for a orquestra – Berlim, Viena, Chicago ou a do teatro Scala, em Milão – não raro ele conclui seus concertos com a camisa para fora da calça.

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Em 2007, quando regeu a filarmônica de Nova York, o venezuelano não soube onde por as mãos ao quebrar, em um de seus rompantes, a batuta que pertencera ao lendário Leonard Bernstein (a quem já foi comparado). Um ano depois, em uma série de concertos na Suécia como principal regente da filarmônica de Gotemburgo, podia-se ouvir do lado de fora da sala de ensaios o pedido aos músicos para que tocassem como adolescentes de uma banda de rock. A peça em execução era a 7º sinfonia de Mahler.

Para o crítico de música Alex Ross, da revista americana The New Yorker, Dudamel é um obcecado, um servo da música erudita. Em entrevista ao site de VEJA o maestro brasileiro John Neschling o definiu como “a essência da música”.

Contra a parede – Como diretor musical da filarmônica de Los Angeles, Dudamel atraiu mais holofotes para a sua carreira. Os vídeos com trechos dos seus concertos no Youtube saltaram de dezenas para milhares. As cobranças se multiplicaram de igual forma. À manutenção da própria imagem somou-se o desafio de atrair novos assinantes, a contratação de músicos, o planejamento de turnês, a redefinição do repertório e da sonoridade do grupo e a criação de um projeto social nos moldes do Sistema.

Em 2010, após a primeira turnê pelos Estados Unidos, as críticas começaram a pipocar. Há quem acredite que a sequencia de concertos foi mal planejada e teve espetáculos irregulares. O entrosamento entre músicos e maestro estava longe de ser perfeito – o que, no entanto, se poderia desculpar pelos poucos meses de convivência. Conservadores enxergaram na sua ascensão o risco de que a cultura erudita fosse abruptamente alcançada pelo hype.

O respeitado crítico Timothy Mangam, colaborador do jornal americano Los Angeles Times e da revista britânica Gramophone, perguntou “em que lugar da terra estará Dudamel agora?”, atacando as suas viagens para reger outras orquestras. “Ele nos visita quando pode”, ironizou Mangan sobre as raras estadas do maestro na Califórnia.

A resposta às críticas vem a conta-gotas. A filarmônica californiana aumentou em 20% o número de assinantes desde 2009 e isso, em boa parte, se deve a ele. Restam três anos de contrato para Dudamel responder aos detratores e provar que pode, de fato, deixar a marca de sua personalidade na primeira orquestra de peso que dirige.

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