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Guerra santa

Em atuação impressionante, Ethan Hawke encarna pastor que se converte à pregação escatológica dos dias de hoje em 'Fé Corrompida', do diretor Paul Schrader

Por Isabela Boscov Atualizado em 1 mar 2019, 07h00 - Publicado em 1 mar 2019, 07h00
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  • Com o cabelo aparado rente, o rosto escanhoado e a magreza ascética, Ethan Hawke é um homem reduzido ao indispensável — física e também espiritualmente: o reverendo Toller, que ele interpreta em Fé Corrompida (First Reformed, Estados Unidos/Inglaterra/Austrália, 2017; já disponível nas plataformas sob demanda), quase não tem rebanho que pastorear nem esperança que o preencha. Depois de uma terrível crise íntima, ele foi alocado numa igrejinha puritana histórica, frequentada por meia dúzia de fiéis — entre os quais a jovem Mary (Amanda Seyfried), que está grávida e temerosa da depressão do marido, um ambientalista que acha cruel trazer novas vidas a um mundo tão deteriorado. Toller e o rapaz debatem, e é o ativista que deixa a marca mais funda: “O senhor acha que Deus vai nos perdoar pelo que estamos fazendo?”, ele indaga. Quando Mary descobre que seu marido estava pronto a virar um jihadista ecológico, o desejo de sacrifício de Toller — ele não come, só bebe, e recusa-se a se tratar da má saúde — começa a ganhar contornos concretos.

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    A atuação profundamente comprometida de Hawke merecia uma indicação ao Oscar, assim como o roteiro do diretor Paul Schrader, que faz um exame intenso da torpeza de quem destrói e do ardor de quem quer salvar. Criado no calvinismo e um dos cineastas mais transgressivos que despontaram nos anos 70, Schrader retrata o ambientalista como um profeta do fim dos dias, na tradição de Jesus, ou da condenação ao inferno, na tradição da Reforma. À esperançosa Mary, cabe guerrear contra essa visão apocalíptica pela alma do reverendo.

    Publicado em VEJA de 6 de março de 2019, edição nº 2624

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