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Entre glamour e erros do passado, Hollywood ganha museu do cinema

Presidido pela mesma Academia que organiza o Oscar, o Academy Museum of Motion Pictures promete reflexões críticas sobre os caminhos da indústria

Por Tamara Nassif 24 set 2021, 17h00

Lar de celebridades, aspirantes a celebridades, letreiros icônicos e calçadas estreladas, Los Angeles é a capital da indústria cinematográfica. Agora, na próxima quinta-feira, 30, a cidade americana ganhará um novo ponto turístico: o aguardado Academy Museum of Motion Pictures, museu de sete andares e 28.000 m² dedicado à história do cinema, presidido pela mesma Academia que coordena o Oscar. Mas, invés de ser apenas uma vitrine do brilho hollywoodiano, a instituição vem com o objetivo de apresentar uma história não-linear da indústria, a incluir reflexões que encaram erros do passado.

O resultado, depois de muitos atrasos na inauguração, orçamento beirando mais de 484 milhões de dólares, abalos na administração e distúrbios pandêmicos, é uma bem-vinda visão crítica dos caminhos do cinema até aqui. Com mostras que salientam a “branquitude” como norma, ou mesmo a enfadada visão sexista sobre mulheres na indústria, o museu é uma consagração definitiva das sacudidas trazidas pelos movimentos #OscarsSoWhite e #MeToo. “Estamos celebrando a produção de filmes, mas também tendo conversas difíceis sobre componentes de nossa história dos quais somos menos orgulhosos”, disse o diretor Bill Kramer. “Precisamos falar honestamente sobre quem somos enquanto indústria.”

Visão do auditório do Academy Museum of Motion Pictures, museu dedicado à história do cinema, em Los Angeles
Visão da cúpula do Academy Museum of Motion Pictures, que abriga um teatro com capacidade de 1.000 pessoas Iwan Baan/Divulgação
Sala de cinema do Academy Museum of Motion Pictures, em Los Angeles
Sala do Academy Museum of Motion Pictures, em Los Angeles Iwan Baan/Divulgação
  • Mesmo que limitada pelo vínculo com o Oscar, a Academia não se esquiva de abordar assuntos espinhosos. Há, por exemplo, a galeria Impact/Reflection, dedicada a filmes que discutem Black Lives Matter, #MeToo, relações trabalhistas e mudanças climáticas. Uma exposição reflete sobre os diretórios racistas de 1939, que segregavam artistas não-brancos em seções separadas e que, mesmo depois da unificação das categorias, continuaram em vigor pela exclusão total de negros e asiáticos em nomeações. Na seção de figurinos e maquiagens, há caixas de vidro que comportam cosméticos de “blackface” e “yellowface” – estilos de tintura facial usados para que atores brancos pudessem interpretar personagens não-brancos, muitas vezes de forma estereotipada. Em outra sala, telas gigantes rotacionam discursos notáveis do Oscar e expõem o ritmo vergonhosamente lento do processo de inclusão, com Rita Moreno, a primeira atriz latina a vencer uma estatueta, em 1962, ao lado de Chloé Zhao, a segunda mulher (e a primeira não-branca) a ganhar a categoria de melhor direção, em 2021. É uma guinada que marca a decadência da mea culpa feita pela Academia até pouco tempo atrás, que se eximia de discussões sobre diversidade e inclusão ao alegar que não fazia os filmes, apenas honrava os que eram feitos.

    Mas não é só de reparações históricas que se vale o museu. A exposição principal, Histórias do Cinema, toma três andares, a começar com uma montagem de 700 filmes da família Spielberg que se desdobra em uma série rotativa de filmes e cineastas influentes no ramo, como o canônico Cidadão Kane ou o ator e artista marcial Bruce Lee. Há espaços dedicados a Spike Lee, Hayao Miyazaki e Pedro Almodóvar, e uma galeria que parte de O Mágico de Oz para explorar os bastidores da indústria, indo de roteiro e elenco a design de produção, maquiagem, efeitos especiais e figurinos. Objetos icônicos, como os sapatinhos vermelhos da Dorothy, de Oz, o protagonista Bruce do filme Tubarão e a cabeça de alienígena de Alien também estão em exibição.

    Exposição Histórias do Cinema, com ala dedicada ao ator Bruce Lee, no Academy Museum of Motion Pictures, em Los Angeles
    Exposição Histórias do Cinema, com ala dedicada ao ator Bruce Lee, no Academy Museum of Motion Pictures, em Los Angeles Daniel Gomez/Divulgação
    Andares do Academy Museum of Motion Pictures, desenhado pelo arquiteto Renzo Piano, do Centro Pompidou
    Andares do Academy Museum of Motion Pictures, desenhado pelo arquiteto Renzo Piano, do Centro Pompidou Iwan Baan/Divulgação

    Desenhado por Renzo Piano, arquiteto por trás do parisiense Centro Pompidou, o museu era um sonho da indústria cinematográfica desde a primeira cerimônia do Oscar, em 1929. Foi só em 2012 que a empreitada começou a de fato ganhar contornos definitivos, mas uma série de entraves financeiros empurrou a construção para 2015, com a promessa de inauguração em 2017. Desde então, todos os anos que se seguiram carregavam a esperança do lançamento, até que, em 2020, Tom Hanks anunciou, durante a entrega de estatuetas do Oscar, que o museu finalmente chegaria ao final do ano. A pandemia, é claro, tinha outros planos. O Academy Museum of Motion Pictures finalmente verá a luz do dia no próximo dia 30 – depois de uma epopeia digna de roteiro de ficção.

     

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