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De asno pintor a elefante vingativo: livro questiona a inteligência animal

Escrito pela filósofa Vinciane Despret, obra reúne histórias de bichos agindo como humanos e questiona irracionalidade dos seres

Por Amanda Capuano Atualizado em 10 dez 2021, 16h54 - Publicado em 2 dez 2021, 16h47

Em 1910, um quadro intitulado Pôr do Sol sobre o Adriático foi exposto no Salão dos Independentes, na França, assinado pelo então estreante Joachim-Raphaël Boronali. Tratava-se, porém, de um pseudônimo — o verdadeiro criador atendia pela alcunha de Lolo e era, quem diria, um asno, no sentido literal da palavra. Grande crítico da arte moderna, o dono do animal, Roland Dorgelès, resolveu pregar uma peça nos entusiastas do gênero. Para isso, amarrou um pincel no rabo do bicho e colocou-o em frente a um monte de vegetais enquanto uma tela posicionada em sua traseira registrava a pintura, depois vendida por 400 francos. A história abre o primeiro capítulo do livro O Que Diriam Os Animais?,  da psicóloga e etóloga (ramo que estuda o comportamento dos animais) Vinciane Despret. Publicado no Brasil pela editora Ubu, o livro funciona como uma espécie de alfabeto em que cada capítulo corresponde a uma letra e questiona se os animais são mesmo tão irracionais quanto julgamos. “Chamamos de excepcionalistas aqueles que acreditam que os seres-humanos são os únicos seres racionais na Terra, mas muitos dos cientistas que eu conversei não concordam com isso”, contou Despret a VEJA. 

Assim, no primeiro capítulo, intitulado A – Bichos Pintores?, a autora reúne uma série de casos em que animais são os responsáveis pela execução de obras de artes, fomentando uma discussão antiga: é possível considerá-los como artistas? Despret afirma que para dar tal respostas, leva-se em conta se há ou não intenção do bichano em produzir arte, mas essa pergunta, conforme discorre no capítulo, não é a mais adequada para entender os animais. “É muito complicado fazer a mesma pergunta para todas as culturas, e eu acho que isso se aplica aos animais também”, analisa.

Para provar seu ponto, Despret descreve um experimento com elefantes tailandeses no Maetaeng Elephant Park. Nos vídeos que circulam na internet, os animais aparecem fazendo uma espécie de autorretrato estilizado com flores e árvores que encanta a plateia. Ela apresenta, então, a visão do cientista Desmond Morris, que concluiu que os elefantes apenas respondem aos comandos de seus criadores, como um carinho nas orelhas antes dos traços. “Aprendi a desconfiar da maneira como o problema é colocado. Ao longo de minhas pesquisas, constatei que os animais são, muito mais rapidamente que os humanos, suspeitos de falta de autonomia. Como se tornar pintor ou artista não passasse pela aprendizagem dos gestos daqueles que nos precederam”.

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A obra tem capítulos que funcionam como uma espécie de alfabeto, em que cada letra corresponde a uma pergunta Editora Ubu/Reprodução

Em outro capítulo, ela discorre sobre uma questão quase filosófica: os animais podem se revoltar? No cerne do capítulo estão os elefantes africanos que, conforme relata, passaram a entrar em conflito com humanos sem motivo aparente nos últimos anos. Alguns cientistas apontam para uma geração de “adolescentes delinquentes” surgida nos últimos vinte anos, fruto da degradação da socialização gerada pela caça ilegal. Ela cita também o livro de Jason Hribal que se debruça sobre “acidentes” registrados em zoológicos. Conta a obra que os casos estão geralmente ligados a uma revolta dos animais em relação aos abusos sofridos, o que indicaria uma consciência moral vingativa por trás da brutalidade.

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Vinciane Despret, filósofa do comportamento animal Editora Ubu/Divulgação

O livro transita ainda por outros temas, como a dúvida se os animais enxergam a si mesmo da mesma forma consciente que nós humanos nos vemos. Ela cita, por exemplo, a homossexualidade dos pinguins e a possibilidade dos bichos assumirem compromisso amorosos uns com os outros. Ela espera, agora, que ao olhar os animais sob novas lentes possa trazer benefícios para a humanidade. “Descobrimos com os antropólogos que a família tradicional, com um pai, uma mãe e os filhos, não é um conceito universal e que existem muitas outras configurações de família ao longo da história. Eu acredito que a etologia possa abrir a nossa mente e nos ajudar a imaginar outras formas de se viver”.

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