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Briga por direitos autorais faz músicos desistirem de box do Legião Urbana

Pouco antes de lançarem os discos, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá receberam um comunicado que informava que uma das músicas pertencia não a eles, mas a Renato Russo e a seu filho, Giuliano Manfredini

Por Da Redação 22 out 2015, 19h21

Quando descobriu o tamanho da criatura que havia ganhado vida própria por suas mãos, Renato Russo foi ao microfone e proclamou ao mar de fiéis à sua frente: “A gente está aqui no palco, mas a verdadeira Legião Urbana são vocês”. A verdadeira Legião Urbana, ainda mais numerosa do que na década de 1980, não deve estar feliz com os últimos acontecimentos que envolvem a longa batalha por direitos autorais entre o filho e único herdeiro de Renato, Giuliano Manfredini, e os dois legionários remanescentes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.

Além da turnê que começa nesta sexta-feira em Santos e segue por várias cidades do país, Dado e Bonfá já tinham em mãos um segundo projeto fonográfico pronto e acabado. Um box que traria dois discos, um livreto e potencial para provocar êxtase nos fãs: uma remasterização do primeiro álbum da Legião que completa 30 anos, com Será, Geração Coca-Cola e Soldados, e um segundo disco com sobras de estúdio e versões de músicas como algumas que a Legião tocou para mostrar à gravadora EMI quando chegou de Brasília ao Rio. O diamante é a música 1977, que a banda gravou e nunca lançou porque Renato não gostou do resultado e acabou desmembrando-a para dar origem a outros dois futuros canhões: a melodia inspirou Fábrica e parte da letra deu vida a Tempo Perdido.

Com o box pronto, então, Dado e Bonfá receberam o comunicado de que 1977 pertencia não a eles, mas a Renato Russo e a seu filho. Imediatamente, publicaram também um documento que provava o contrário. Carimbado pelo Departamento de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, a letra da música em papel timbrado da EMI comprova as assinaturas da autoria de 1977: “Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá”. Mesmo com a comprovação, foram informados de que a música havia sido registrada em 2003 no Ecad por Manfredini e, assim, desistiram de lançar o box. “A questão não é dinheiro, mas moral. O herdeiro de Renato tem colocado a integridade deles em questão”, diz uma fonte ligada aos músicos que não quer se identificar.

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Na noite de terça-feira, Manfredini divulgou um comunicado em nome da Legião Urbana Produções Artísticas, sua empresa: “A decisão (sobre o cancelamento do lançamento do disco) foi tomada unilateralmente pelos demais integrantes da banda”. Dava a entender que apoiava o projeto. Em um segundo parágrafo, menciona o registro do Ecad de 1977: “Os demais integrantes da banda (Dado e Bonfá) questionaram a autoria em uma tentativa de apropriação da música 1977, composta integralmente por Renato Russo e cujos direitos estão divididos entre Renato Russo (75%) e Legião Urbana Produções Artísticas (25%), como atestam os registros do Ecad”. Dado e Bonfá falaram com a reportagem quando estavam prestes a tomar a decisão pelo não lançamento. “A família registrou os direitos e não devemos mais lançar”, disse Dado. “É lamentável”, falou Bonfá.

Simples registros no Ecad não confirmam a autenticidade de uma autoria. No máximo, podem gerar duplicidade e provocar investigação. O assunto só seria mesmo desenrolado na Justiça, algo que os remanescentes da Legião já disseram não terem mais energia para fazer. O tom do terceiro parágrafo do comunicado de Manfredini joga o abacaxi no colo de Dado e Bonfá: “No ensejo de manter viva e divulgar permanentemente a obra de Renato Russo, como sempre foi manifesto desejo do artista, a Legião Urbana Produções Artísticas deu total apoio ao projeto do referido álbum e considera a decisão por parte dos demais integrantes da banda de cancelar o projeto como uma tentativa de ofuscar o trabalho de preservação da memória de Renato Russo e impedir a livre circulação de sua obra artística.” Procurado pela reportagem, Manfredini não retornou aos pedidos de entrevista.

O dilema de 1977 não interfere na temporada de shows que vão comemorar os 30 anos de lançamento do primeiro disco da banda – um alento aos seguidores. Por enquanto, quem mais perde com o álbum jogado na fogueira das ambições é uma das maiores bases de fãs que uma banda de rock já teve no Brasil. Ou, como diria Renato Russo, a verdadeira Legião Urbana.

(Com Estadão Conteúdo)

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