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A bossa é pop: ritmo nacional cai nas graças de artistas da Geração Z

De Billie Eilish a H.E.R, cantoras internacionais investem no jeitinho brasileiro em novos projetos – quase sempre seduzidas por 'Garota de Ipanema'

Por Tamara Nassif 19 out 2021, 10h59

Sentados no Bar Veloso, há quase sessenta anos, Vinicius de Moraes e Tom Jobim foram enfeitiçados pelo doce balanço da jovem Heloísa Pinheiro, que andava rumo ao mar do Rio de Janeiro. Do encanto, saíram as inconfundíveis notas de Garota de Ipanema, que, mesmo hoje, segue entoada até por quem nunca pôs os pés na praia carioca. Com mais de 170 versões no currículo, incluindo as pegadas heavy metal da banda Sepultura e sinfonias do tenor italiano Andrea Bocelli, a canção exportou em definitivo a música brasileira, em especial a bossa nova, para a cena internacional – e o faz novamente em pleno 2021. Dessa vez, resgatada por mocinhas do pop.

Quem puxou a fila foi Billie Eilish, cujo disco mais recente, Happier Than Ever, atestou que a voz sussurrada da americana é uma das mais promissoras da nova geração de artistas. Fã de carteirinha da canção de Tom e Vinicius, a jovem de 19 anos pegou o gingado emprestado para a faixa Billie Bossa Nova, que junta batidas eletrônicas a uma guitarra tocada à maneira de João Gilberto, pai do ritmo. Por sinal, é da versão em inglês de Garota de Ipanema cantada por Astrud Gilberto, esposa do baiano, que Billie tirou inspiração para compor a terceira canção do álbum.

Alessia Cara, canadense de 25 anos que conquistou notoriedade com a angústia adolescente de Here, é outra que engrossa o caldinho brasileiro no pop. No processo de composição do disco In The Meantime, ela declarou “só ter ouvido bossa nova”, ritmo que a “leva para um estado de felicidade e relaxamento” e pelo qual é “obcecada”. Tamanha predileção a levou a compor Bluebirduma ode aos passarinhos e à primavera, e a dançante Find My Boy, na qual sai à procura de um rapaz para amar (nas areias de Ipanema). Amante da música brasileira, Alessia já postou vídeos entoando canções em português, de Flor de Lis, de DjavanOnde Anda Você, de Vinicius de Moraes. “Não tenho certeza do que estou dizendo, mas meu amor por bossa nova é fora de controle. Inventando acordes e provavelmente palavras (perdão a todos os brasileiros)”, escreveu a cantora no Instagram ao postar o cover do parceiro de Tom Jobim.

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A misteriosa H.E.R. também bebe do ritmo brasileiro: grande nome do R&B americano, a jovem que esconde rosto e nome diz ter sido influenciada pelo som de João Gilberto, que lhe abriu horizontes. “A bossa nova me fez prestar mais atenção na música de outras partes do mundo”, contou ela em entrevista recente. A catalã Rosalía, pop aqui e na Europa, diz que o movimento foi crucial para sua formação musical – inclusive em termos acadêmicos, enquanto estudava na Escuela Superior de Música de Cataluña. “Quando estudava piano, tive diferentes professores e estudei progressões de acorde e harmonias da bossa nova, que são muito complexas. Eu admiro tanto! Amo Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil”, já declarou. No pop-rock, a banda Paramore incluiu Ho-ba-la-la, do disco Chega de Saudade, de João Gilberto, como influência para a composição do último disco, After Laughter, que destoa da sonoridade de obras anteriores.

É o jeitinho brasileiro demonstrando fôlego – e sendo a coisa mais linda que o mundo pop já viu passar.

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