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Walcyr Carrasco Por Walcyr Carrasco

A rotina obsoleta

Como lidar com a realidade deliciosamente instável de hoje

Por Walcyr Carrasco Atualizado em 29 out 2021, 10h03 - Publicado em 31 out 2021, 08h00

Ser do tempo da máquina de escrever não me assusta mais. Já é objeto de museu. De colecionador. Até seu sucessor, o computador de mesa, está com os dias contados. Tão mais prático o laptop! Mas também existe o tablet, e quem sabe o que logo mais. É surpreendente a velocidade com que meu cotidiano se transforma. Objetos essenciais até um tempinho atrás desapareceram. Eu tinha uma fantástica coleção de DVDs. Fui parando de ver, parando… Acabei pendurando uma parte da coleção na horta para espantar passarinhos comilões. O sol reflete no metálico, é uma beleza. Tenho filmes incríveis. Mas o aparelho de DVD também não funciona bem por falta de uso. Apelo para o streaming. Pen drives vão para o mesmo caminho. Pra que, se existe a nuvem? Fax, secretária eletrônica… Ai, ai, ai… Orelhão. A própria linha telefônica fixa vai desaparecer, questão de tempo. Eu não uso mais. Ainda me lembro (idade, idade…) do tempo em que era difícil ligar pra outra cidade. A ligação interurbana não é mais um bicho de sete cabeças. Scanner? Resolvo no meu celular. Cinzeiro para carro? Obsoleto. Mapa em papel, bip… Discos de vinil só sobrevivem entre colecionadores. Fios, não sei, não. Cada vez mais a tecnologia abre mão deles. Agenda eletrônica? Adeus! Por mais que todo mundo goste, os livros em papel terão o mesmo caminho dos LPs. Os textos eletrônicos não ocupam espaço em apartamentos cada vez menores, são simples de carregar. Qualquer um vai dar risada se alguém falar em despertador. Antigo! O celular resolve. Assim como resolve outras centenas de atividades.

“Estou preparado para o desaparecimento de tudo o que me cerca. E até de tudo o que vai me cercar daqui a cinco, dez anos”

Inventa-se um dispositivo, todo mundo tem, e, dali a pouco, ele é trocado por outro, mais avançado. A velocidade da mudança supera as eras anteriores. O próprio papel está perdendo a razão de ser. Documentos on-line são aceitos. Posso assinar um contrato por e-mail. Houve um tempo em que ter xerox de RG com firma reconhecida era um avanço. Hoje… Quem faz xerox? Imagine, eu sou do tempo em que na escola se faziam apostilas em xerox! Hoje, a gente recebe on-line.

Já estou preparado para o desaparecimento de tudo o que me cerca. E até de tudo o que vai me cercar daqui a cinco, dez anos. O mundo em que eu nasci era estável. O de hoje se transforma o tempo todo. Inclusive o que parece imutável mudará. Transferências bancárias tradicionais perderam lugar para o Pix. Quem poderia prever que até a transferência estaria ameaçada? Principalmente, está acontecendo o fim do dinheiro em papel. Eu, você, quantas vezes, no passado, saímos de casa com a “carteira recheada!? Até essa expressão, “carteira recheada”, se tornou anacrônica. Usamos cartões de crédito — que em breve desaparecerão também, substituídos por outras formas de pagamento, como a aproximação. Não uso dinheiro físico já faz um bom tempo. É apenas um número, um símbolo que se utiliza em transações comerciais, bancárias…

Parece estável? Vai sumir. A vida se torna obsoleta a cada segundo. Mas o novo vai surgir. Isso torna a vida fascinante. A realidade é deliciosamente instável.

Publicado em VEJA de 3 de novembro de 2021, edição nº 2762

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