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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Anotem aí: está em curso a “Operação Salva-Delta”. Vejam o que fez hoje o peemedebita Pezão, governador de fato do Rio

Anotem aí: está em curso uma “Operação Salva-Delta”. Não sei se a construtora já contratou uma dessas empresas especializadas em “cuidar da imagem” de seus clientes — o que inclui trabalho de assessoria de imprensa, relações públicas e, sobretudo, plantação de notas em colunas influentes, mas tudo indica que sim. Esse é um dos ramos que […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 09h04 - Publicado em 19 abr 2012, 15h29

Anotem aí: está em curso uma “Operação Salva-Delta”. Não sei se a construtora já contratou uma dessas empresas especializadas em “cuidar da imagem” de seus clientes — o que inclui trabalho de assessoria de imprensa, relações públicas e, sobretudo, plantação de notas em colunas influentes, mas tudo indica que sim. Esse é um dos ramos que mais prosperam no Brasil, que fazem milionários. Governos, governantes, políticos no geral e estatais estão entre os seus bons clientes.

Aos poucos, vamos tomando ciência, ora vejam!, do lado verdadeiramente heroico de Fernando Cavendish, o dono da Delta. Entre outras coisas, somos convidados a condescender com a hipótese de que, quando atua em Goiás, a empresa mete o pé na jaca. No Rio, não! No Rio, certamente tudo é feito segundo o mais absoluto rigor.

Nesta quinta, MAIS UMA VEZ, o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, que é do PMDB (um dos partidos que vai comandar a CPI), saiu em defesa da construtora e de seu proprietário, Fernando Cavendish. Nota à margem: Pezão é o governador de fato do Estado, para o bem e para o mal. Sérgio Cabral é só uma espécie de garoto-propaganda.

Pezão deu atestado de idoneidade à empresa: “A Delta é uma empresa muito agressiva, pratica preços menores, tem uma estrutura menor e é uma empresa agressiva, por isso ela tem mais contratos.”  Foi além, informa o Estadão Online: “Os contratos obedeceram a todos os editais. Na lei de emergência a gente caracterizou muito bem. Era uma empresa que tinha muitos contratos em volta daquela tragédia, contratos com o governo federal, então era a empresa que tinha mais facilidade para nós acessarmos as máquinas, pedirmos as máquinas, então não temos problema nenhum. Sobre a quantidade, o valor que ela tem de contratos com o Estado, todas as empresas cresceram sua participação, o Estado aumentou cinco vezes o investimento, então não tem problema nenhum.”  Também se disse amigo de todos os empreiteiros, não só de Cavendish: “Eu sou amigo de todos, fui secretário de obras. Então eu não vejo problema nenhum na CPI”, disse Pezão.

Já fez antes
Ah, essa memória que não me abandona. Não é a primeira vez que Pezão faz a defesa entusiasmada de Cavendish. No dia 7 de julho do ano passado, inaugurando uma obra do PAC no Complexo do Alemão, na presença de Dilma Rousseff, o vice-governador exaltou o empresário e atacou os órgãos de fiscalização do Estado.  Escrevi um post a respeito, que os convido a reler. Serve para lembrar as circunstâncias em que o elogio foi feito. Volto para encerrar.
*
Não há político no Brasil que tenha aprendido tanto com Luiz Inácio Lula da Silva como Sérgio Cabral, governador do Rio: imita-o na falta de limites, na disposição de afrontar a ordem legal, na marquetagem pessoal, no destemor com que desafia o ridículo. Todos o viram há pouco a lançar uma espécie de código de ética para o governo do estado. Seria uma iniciativa meritória não estivesse em questão o comportamento do próprio Cabral, chegado a receber favores de bilionários com sólidos interesses na administração.

A promiscuidade, há muito conhecida, ganhou tinturas dramáticas com o acidente de helicóptero que matou piloto, duas crianças, uma babá e três mulheres: Mariana Noleto, namorada de um filho de Cabral do primeiro casamento; Jordana Kfuri, mulher do empreiteiro Fernando Cavendish, e Fernanda, irmã de Jordana e namorada de Cabral, que se divorciou só ontem de sua segunda mulher. No Rio, todos sabem disso, mas preferem falar do barquinho que vai e da tardinha que cai. Estavam reunidos na Bahia para comemorar o aniversário de Cavendish, um homem de trajetória empresarial, como dizer?, um tanto conturbada. A Delta toca obras de mais R$ 1 bilhão no estado do Rio, mais de R$ 200 milhões desse total sem concorrência.

A proximidade do governador Sérgio Cabral com Cavendish, dono da Delta, e favores outros recebidos de Eike Batista, somados ao drama pessoal vivido pelo homem Sérgio Cabral lançaram o seu governo numa espécie de crise de credibilidade. De súbito, o político que consegue dosar com grande competência, admito, fanfarronice, dramaticidade, populismo e até certos ecos daquela estereotipia do “malandragem” carioca se viu sorumbático, um tanto abatido, atropelado pela sua falta de senso de medida, como uma espécie de ressaca que sobreviesse à alegria que leva um jovem a exagerar na dose. Foi, assim, nesse seu momento taciturno, que o tal código veio à luz, como se não houvesse leis que desaconselhassem Cabral a usar o jatinho de um ou a participar do convescote de outro…

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Pois bem. Ontem, a presidente Dilma Rousseff foi ao Rio inaugurar o teleférico no Complexo do Alemão. Em um mês, a presidente teve de demitir dois ministros: Antonio Palocci saiu no dia 7 de junho, e Alfredo Nascimento, no dia 6 de julho. Embora os dois estejam envolvidos em casos de natureza distinta, pode-se dizer que uma coisa os une: a falta de liturgia ao lidar com o interesse público. O caso de Nascimento é mais grave para o governo porque envolve uma fatia da base de apoio no Congresso. Muito bem.

Cabral ainda está na sua fase de recolhimento. O grande orador do governo do Rio foi o vice-governador, Luiz Fernando Pezão. E ele não hesitou:
 “Ninguém sabe no Brasil mais do que a senhora (Dilma Rousseff) o que é fazer obra pública neste País (…) Eu queria aqui dividir esse momento (…) por nós estarmos celebrando de vencer a burocracia toda, de vencer os ministérios públicos, de vencer todas as dificuldades que existem num processo como esse”
.
Em seguida, metendo os pezões pelas mãos,  mostrou-se grato às empreiteiras, inclusive à Delta, a empresa de Cavendish, também citada nominalmente.

Eu sempre me emociono quando vejo um governante falar das enormes dificuldades legais que os patriotas enfrentam para governar o Brasil, como se todos eles nos fizessem um enorme favor, abrindo mão dos próprios interesses para defender os nossos. Eu estou entre aqueles que, de vez em quando, enroscam com uma exigência ou outra do Ministério Público, mas eu posso! A homens públicos não cabe fazer proselitismo contra órgãos encarregados de fiscalizar a conduta de… homens públicos! Essa era uma das peças de resistência de Lula, que atacou de modo sistemático, nos seus oito anos de governo, o Tribunal de Contas da União, por exemplo.

São dias realmente muito especiais estes que vivemos. Uma presidente que acaba de demitir a cúpula de um Ministério diante de evidências gritantes de corrupção ouve um vice-governador ser grato às empreiteiras – inclusive àquela que é pivô da crise que enfrenta o governador – e atacar os “ministérios públicos”. Esta mesma presidente impôs ao Congresso um regime de concessão de obras públicas para a Copa do Mundo que poderá, por comparação, fazer gente como Valdemar Costa Neto parecer um coroinha. Na prática, o texto devolve o país à selvageria pré-lei de licitações.

Estamos sendo governados por heróis que descobriram as virtudes revolucionárias de jogar no lixo as leis.

Encerro
Pezão assegurar que tudo está certo em seu governo é do jogo. Atestar a idoneidade de um empresário que vai ser investigado pela CPI, de que seu partido é um dos comandantes, está fora das regras. Se o elogio à Delta em julho do ano passado já era impróprio, muito mais despropositado se mostra agora.

Quando o vice-governador do Rio (e governante de fato) — o estado mais rico administrado pelo PMDB — assevera que o empresário que deveria ser um dos principais focos da CPI está acima de qualquer suspeita, algo de muito errado está em curso. Ou a CPI não vai investigar o essencial ou servirá apenas como instrumento de vingança contra dois ou três desafetos da maioria influente.

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