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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura
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A memória seletiva de Bumlai, o amigão de Lula. Ele começa a se lembrar de algumas coisas…

Empresário que tinha livre acesso ao Planalto admite que ex-presidente se encontrou com lobista preso; ele admite parte da delação de Fernando Baiano

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 00h14 - Publicado em 26 out 2015, 05h37

José Carlos Bumlai, o amigão de Lula, concedeu uma entrevista ao Estadão deste domingo, orientado por advogados da primeira à última palavra. É claro que não há nada de errado nisso e que ele tem direito a um defensor, como qualquer pessoa. Mas a gente também tem o direito de dizer como são feitas as salsichas, certo? Não o estou criminalizando por usar a imprensa para articular a sua defesa — é do jogo. Mas tenho o direito de chamar a atenção dos leitores.

Para lembrar
Quem é mesmo Bumlai? É aquele amigo do peito de Lula que, segundo o delator Fernando Baiano, levou o ex-presidente a fazer lobby em favor da OSX, de Eike Batista, junto à Sete Brasil, empresa criada para a construção de navios-sonda, de que a Petrobras é sócia majoritária. Baiano diz que Bumlai cobrou R$ 3 milhões de propina, preço depois reduzido a R$ 2 milhões, para mobilizar Lula. Esse dinheiro, segundo o delator, teria ido para uma das quatro noras do ex-presidente.

De início, como de hábito, todos negaram tudo, e, como é ainda mais óbvio, ninguém sabia de nada. Depois, os advogados de Bumlai certamente o ajudaram a recuperar a memória — ao menos parte dela.

Bumlai admite que recebeu uma bolada de Baiano — R$ 1,5 milhão, diz, não R$ 2 milhões, como acusa o outro. Afirma ainda ter se tratado de um empréstimo, que teria sido repassado para uma empresa sua e depois para a sua conta pessoal. Ele exibe extratos com o registro das transferências.

Advogados não são trouxas e sabem ser melhor admitir o que está documentado. Ah, sim: Lula já havia dito não ter nada com a história e levantou a hipótese de Bumlai ter usado seu nome sem consentimento.

O empresário, no entanto, confirma outro aspecto da delação de Baiano: o ex-presidente participou, sim, de reunião para tratar do assunto. Segundo diz, ele, baiano e João Carlos Ferraz, então presidente da Sete Brasil, almoçaram juntos. O lobista teria ido embora, e a dupla, rumado para o Instituto Lula. Mais um dado: Ferraz é aquele que já admitiu em carta de próprio punho ter recebido propina de estaleiros de pelo menos R$ 2 milhões.

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O relato de Bumlai pode ser bom para advogados articularem a defesa, mas é uma miséria em matéria de verossimilhança. Ele diz, por exemplo, que não sabia haver uma determinação na portaria do Palácio do Planalto, quando Lula era presidente, que lhe dava livre acesso à sede do governo federal. Vejam a imagem abaixo.

Bumlai - autorização

Junto de sua fotografia, lia-se a seguinte ordem:
“O sr. José Carlos Bumlai deverá ter prioridade de atendimento na portaria Principal do Palácio do Planalto, devendo ser encaminhado ao local de destino, após prévio contato telefônico, em qualquer tempo e qualquer circunstância”.

Diz Bumlai ao Estadão:
“Abro o jornal e tem lá o crachá, que eu teria acesso irrestrito ao Palácio com todas as portas abertas, a hora que eu quisesse. Eu não sabia que tinha aquilo lá, esse crachá. Aliás, o crachá tinha que estar comigo, não?. Muito bem, nunca soube daquele crachá. Durante os oito anos que o presidente Lula esteve no Palácio do Planalto eu fui duas vezes no gabinete dele.”

Ora, ora… A determinação não é matéria de opinião. É matéria de fato. Estava lá. Não era um crachá. Era uma ordem com a sua fotografia.

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Outro trecho chama atenção. Bumlai tenta negar a proximidade com Lula, dizendo que eram apenas amigos de festas, mas admite, vejam que coisa!, conhecer as quatro noras do presidente. É claro que não é crime conhecer as noras de alguém. Mas parece que isso denota intimidade, não distanciamento.

Bumlai afirma que Baiano depositou o dinheiro em uma de suas empresas, e a grana depois foi para a pessoa física. Diz o empresário:
“A Receita tem um tratamento privilegiado para o agronegócio de pessoa física. Você tem taxação menor no agronegócio, a pessoa jurídica é maior. Então, todo o meu negócio é pessoa física. Mas você tem que estruturar como se fosse uma empresa, tem que ter contabilidade, é tudo eletrônico. Já capta o imposto na hora do pagamento de funcionário, tudo, tudo, tudo, esse negócio está contabilizado. Imposto pago, Nota Fiscal eletrônica, mútuo da empresa comigo e os pagamentos de tudo o que foi feito em 2011.”

Eu não entendi. Bumlai está dizendo que recebe empréstimo na pessoa jurídica, faz contrato de mútuo com a pessoa física e paga seus funcionários como tal? Vou começar a plantar manjericão na sacada do meu apartamento e tirar uma carteirinha de agronegociante…

É claro que Bumlai busca livrar a cara em sua entrevista, mas não é menos evidente o esforço para limpar a barra de Lula. A história, no entanto, ficou ainda mais confusa.

Texto publicado originalmente à 1h59 
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