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Paulo Cezar Caju Por Paulo Cezar Caju O papo reto do craque que joga contra o lugar-comum

A arte, o improviso e a rebeldia levaram cartão vermelho

Quem realmente entende de futebol, na prática e não apenas na teoria, sabe a diferença entre firula e recurso

Por Paulo Cezar Caju Atualizado em 18 jan 2021, 15h56 - Publicado em 18 jan 2021, 13h46

Existem algumas teclas do piano do futebol que já devem estar gastas de tanto que eu toco, mas repetirei quantas vezes forem necessárias porque não dá para ouvir certas coisas e ficar calado. Ontem, por exemplo, em mais uma atuação desastrosa do Botafogo, o “professor” Eduardo Barroca advertiu um jogador, não lembro qual, por ele ter dado um passe de efeito. Quem entende de futebol, na prática e não apenas na teoria, sabe que não foi uma firula, mas recurso.

Não sei, sinceramente, se Barroca já jogou na várzea, na praia, em quadras de cimento ou no paralelepípedo, mas sei que vários treinadores do futebol brasileiro nunca chutaram uma bola na vida. Ficam berrando à beira do campo: “ataca a bola!”, “ataca o espaço!”. E os comentaristas, que também nunca assinaram uma súmula, nos metralham com uma série de  “quebra a bola”, “quebra a linha”, uma chatice. Os ex-jogadores que hoje analisam os jogos rezam a cartilha de algum cursinho e transformam as transmissões em um programa intragável.

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Imaginem um técnico reclamando com Rivellino no momento em que ele aplicou o cinematográfico elástico em Alcir. A ousadia não pode ser censurada. Lembram do cruzamento de letra do Léo Lima? Se não fosse o improviso, a bicicleta jamais teria sido inventada por Leônidas. E a folha seca de Didi? A arte e a rebeldia devem conviver em harmonia no futebol. Loco Abreu foi irresponsável quando arriscou cavadinhas em final de campeonato e até em Copa do Mundo? Para mim, foi um artista em dia de pura inspiração.

Já fiz embaixadinhas em frente ao Zé Dias, do Vasco, gol olímpico em Raul e deixei descadeirado muitos xerifões. E na final de uma Libertadores quando Joãozinho bateu uma falta furando a fila de Nelinho? E as “firulas” do genial Ronaldinho Gaúcho e a coleção de canetas de Fenômeno? Pedir para atacar a bola seria a mesma coisa que exigir de Zico um pancadão na cobrança de falta. Cesar Maluco certa vez, fez um gol, escalou o alambrado, pegou o copo de cerveja de um torcedor, bebeu e voltou ao campo. A galera endoidava!

Bira Burro fez um gol e foi abraçar Dadá Maravilha, seu adversário, tudo por conta de uma aposta. Hoje, o jogador corre para comemorar com a torcida e recebe cartão amarelo. Infelizmente, a arte, o improviso e a rebeldia levaram cartão vermelho e os treinadores viraram fiscais que ficam “na beirinha do campo” reprimindo os artistas e premiando os cavalos corredores e os cães de guarda.

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