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O destino dos “ministérios éticos” nas crises (por Helena Chagas)

O problema é que o presidente da República continua a se chamar Jair Messias Bolsonaro

Por Helena Chagas
Atualizado em 30 jul 2020, 19h03 - Publicado em 2 abr 2020, 11h00
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  • Em meados de 1992, com Fernando Collor já acossado pelas denúncias de corrupção deflagradas pelo irmão Pedro e com a CPI do PC trabalhando a todo o vapor rumo ao impeachment, setores do establishment político e da mídia começaram a apostar suas fichas no que chamavam de “ministério ético” para tocar o governo e salvar as coisas. Integrada por grandes nomes acima de qualquer suspeita, como Marcílio Marques Moreira na Economia, Célio Borja na Justiça e Adib Jatene na Saúde, entre outros, a equipe de Collor era um dream team para ninguém botar defeito. Em tese, poderia cumprir o papel de isolar o presidente acusado e manter a administração funcionando.

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    Cobrindo Congresso para O Globo em meio a essa crise, fui um dia, toda animada, perguntar ao então líder do Governo no Senado, Odacyr Soares, sobre a atuação do tal ministério ético: “Minha filha, isso é uma piada. Não tem ministério ético, nem aético, nem aidético! O que existe é presidencialismo, e o presidente é quem manda”. Estava certo ele ao jogar sua ducha de água fria na minha pauta. Nos meses seguintes, os “éticos” do governo Collor, em vez de assumir o comando, foram pedindo demissão ou sendo demitidos, um a um. Quando o impeachment chegou, forçando a renúncia do presidente em 30 de dezembro, já tinham vazado ou sido vazados.

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    Lembro disso ao ver a forma otimista com que estão sendo recebidos os movimentos de ministros como Paulo Guedes (Eonomia), Sérgio Moro (Justiça) e Braga Netto (Casa Civil) em apoio o trabalho sensato e correto do colega da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que, contra a vontade de Jair Bolsonaro, continua sustentando a orientação pelo isolamento horizontal nessa fase da pandemia do coronavírus. Em meio ao comportamento desatinado do presidente – que critica abertamente as medidas decretadas por seu governo e pelos governadores, grava pronunciamentos na TV em que sobe e depois baixa o tom e usa o palco do Alvorada e as redes sociais para radicalizar de novo –, a posição do ministro da Saúde e dos colegas, incluindo os militares, é um bálsamo.

    Esse sopro de sensatez é um alento. Há quem veja, até, a existência de dois governos paralelos, o dos ministros profissionais e o do presidente que, com seus filhos e a ala olavista radical, desobedece, sabota o trabalho e dissemina a insegurança na população. Rezemos para que Deus conserve o “ministério sensato” de Bolsonaro – até porque, do jeito que as coisas estão, só Deus.

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    Mas o problema é que o presidente da República continua a se chamar Jair Messias Bolsonaro, eleito diretamente em outubro de 2018, empossado em janeiro de 2019 e detentor de todas as prerrogativas que lhe garante a Constituição. Nomear e demitir, vetar ou não vetar, autorizar gasto ou não autorizar, pedir decretação de Estado de Sítio ao Congresso, ser o comandante chefe das Forças Armadas, etc. Ilusão imaginar que um punhado de ministros, por mais bem intencionado e articulado politicamente que seja, vá liderar e levar sozinho o país nessa difícil travessia.

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    Jair Bolsonaro, que assim como o doido que não rasga dinheiro, não comete suicídio político, vai e vem, estica e solta a corda, acelera e freia. Tem método na loucura e assim continuará, reagindo a qualquer arranjo político patrocinado por forças que tentem tutelá-lo. No plano institucional, tais situações não se resolvem com jeitinho. Como ensina a história – e Collor está aí para mostrar – há momentos em que a agonia só acaba, recuperando-se um mínimo de segurança para o país, quando os homens (e mulheres), tementes ou não a Deus, resolvem cortar o mal pela raiz, com os instrumentos legítimos da democracia e do Estado de Direito.

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    Helena Chagas é jornalista 

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