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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

As mentiras do presidente da Funai sobre Bruno Pereira e Dom Phillips

Líder da entidade deveria concentrar todos os esforços para encontrá-los, e não tentar manchar a reputação de dois desaparecidos

Por Matheus Leitão Atualizado em 21 jun 2022, 10h07 - Publicado em 9 jun 2022, 14h40

O presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Xavier, mente.

Não é a primeira vez que ele faz isso no exercício da função pública, mas agora é ainda mais grave, já que se trata de duas pessoas – Bruno Pereira e Dom Phillips – que estão desaparecidas na selva amazônica e não podem se defender.

Cabe, então, à sociedade fazer esse papel em defesa do maior indigenista em atividade no Brasil e do talentoso colega jornalista do The Guardian.

Nesta quarta-feira, Marcelo Xavier afirmou, de forma equivocada, que a missão de Pereira e Phillips “não foi comunicada à Funai”.

“A Funai não emitiu nenhuma permissão para ingresso. É importante que as pessoas entendam que quando se vai entrar numa área dessas, existe todo um procedimento”, disse primeiramente. Depois, o presidente da Funai completou: “é muito complicado quando duas pessoas apenas decidem entrar na terra indígena sem nenhuma comunicação aos órgãos de segurança e à [Fundação]”.

Vale lembrar que Bruno Pereira e Dom Phillips não estavam na Terra Indígena (TI) Vale do Javari quando desapareceram. O indigenista levou o jornalista a um acampamento da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, a Univaja, no limite da TI, a segunda maior do Brasil.

Essa é a primeira mentira sobre o caso dita por Marcelo Xavier, um delegado bolsonarista da Polícia Federal que assumiu a presidência da Funai em meados de 2019 e que, desde então, tem falhado no papel legal e institucional de proteger e promover os direitos dos povos indígenas.

Sua gestão, na realidade, tem sido marcada por divergências internas que resultaram na demissão de funcionários, em nomeações políticas para cargos técnicos e na escalada de violência em terras indígenas.

Escrevi sobre isso quando ele ainda completava seis meses no cargo.

É de conhecimento público que Bruno Pereira sempre garantiu aos povos indígenas o acesso aos direitos sociais e de cidadania – como saúde, educação e seguridade social – mas observando as particularidades dos costumes, línguas, crenças e tradições das tribos.

Ainda assim, três meses depois que Marcelo Xavier assumiu a Funai, Bruno Pereira foi exonerado da função de coordenador-geral de Índios Isolados e Recém Contatados, após pressão de setores ruralistas ligados ao governo, como, aliás, foi denunciado pela coluna.

Bruno Pereira é um servidor da Funai altamente capacitado, seja para gerir políticas públicas da Fundação, como para o trabalho de campo, já que é um exímio conhecedor de dialetos indígenas e da geografia da região Amazônica, especialmente no Vale do Javari, onde desapareceu.

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Mas, na gestão atual, acabou substituído por um pastor evangélico fundamentalista que não compreendia a política de zero contato com os povos isolados, motivo de diversas reportagens da coluna.

O substituto de Bruno, pastor Ricardo Lopes Dias, atuou durante anos na Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), principal organização religiosa que prega a evangelização de indígenas na Amazônia, uma entidade que ameaçou processar este colunista por conta das seguidas reportagens sobre os desmandos na Funai.

Hoje desaparecido, Bruno Pereira não é só vítima de mentiras de Marcelo Xavier, mas também de sua covardia.

“O problema é que, infelizmente, as pessoas sabem do risco e insistem em ir lá sabendo desses riscos. À Funai, agora, o que cabe fazer é atuar efetivamente para tentar localizar essas pessoas e colocar bem claro às pessoas que pretendem ir nas áreas de indígenas isolados, que façam o procedimento correto que é pedir a autorização para a Funai e não se coloquem em risco”, disse também o presidente da Funai.

Bruno Pereira é o maior especialista em povos indígenas isolados do Vale do Javari e era o primeiro a defender que se pedisse autorização à Funai para a entrada na região.

Ele sempre ensinava o que a atual gestão da Fundação esqueceu: interações com povos indígenas no passado levaram a tragédias, ocasionando mortes de até 70% da população de índios por doenças como gripe ou sarampo, porque as tribos não têm imunidade.

Imagine em tempos da pandemia da Covid-19? Bruno Pereira era o maior defensor da proteção dos povos e trabalhou incessantemente para isso. E, na incursão anterior que fez à Terra Indígena, a Funai estava informada.

Indiretamente, seu trabalho resultou inclusive em decisões judiciais de proteção dos indígenas, como esta do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ela impediu os evangélicos que insistiam em avançar sobre esses territórios com o intuito de evangelizar os indígenas, como se eles não pudessem ter a tradição religiosa deles.

Portanto, essa é a segunda mentira sobre o caso dita por Marcelo Xavier, que insinuou que o servidor de carreira da Fundação que preside não havia feito o “procedimento correto”.

O indigenista mais importante do país, perseguido internamente pela atual gestão, prestava serviços para a Univaja, com o conhecimento registrado em mais de um documento interno da Funai no ano de 2022 – o último dele, em maio, quando a Fundação informou saber do trabalho realizado por Bruno Pereira no Vale do Javari.

Mesmo assim, as comunidades indígenas – e suas lideranças – têm total autonomia para convidar às suas terras aquele que consideram “a maior autoridade do país em campo especializado em índios isolados”.

Foi desta forma que a Univaja definiu Bruno Pereira nesta quarta-feira, 8.

Ainda assim, diante da desfaçatez do atual governo, é preciso insistir: Bruno Pereira e Dom Phillips não se aproximaram de povos isolados nem fizeram expedição que necessitasse de um novo pedido à Funai. O presidente da entidade deveria concentrar todos os esforços para encontrá-los, e não tentar manchar a reputação de dois desaparecidos.

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