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Por Diogo Sponchiato
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O desafio ecológico: menos apocalipse, mais gentileza e filosofia

Em novo livro, Timothy Morton propõe outra forma de encarar as questões ambientais e nosso papel diante delas

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 10 Maio 2024, 08h48 - Publicado em 3 out 2023, 16h03

Timothy Morton está longe de ser ecoativista, no sentido estrito do termo. Se há uma bandeira que levanta, provavelmente é a da filosofia, na acepção mais purista da palavra, a de “amor à sabedoria”. Essa concepção, guiada por um tom sincero, gentil e, às vezes, irônico, permeia seu livro recém-lançado no Brasil, Ser Ecológico, publicado pela Quina Editora.

Morton não escreve para persuadir ninguém, muito menos para fazer terrorismo sobre os desastres climáticos e ambientais. Escreve para despertar e engajar quem ainda não se deu conta (ou até já se deu conta) de quão conectada com o mundo e simbiótica é a nossa existência, o que pressupõe uma interdependência do planeta e das outras formas de vida. Cuidar do(s) outro(s) para cuidar de si – e vice-versa.

Um jeito diferente de discutir a relação: entre nós… e com aquilo que nos cerca. Em vez de dados científicos e números apavorantes – não que eles não tenham seu valor -, Morton, que leciona estudos literários na Universidade Rice, nos EUA, parte para uma conversa aberta, com direito a viagens filosóficas.

Gentileza e sabedoria em vez de Apocalipse, se quisermos salvar o mundo.

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Com a palavra, Tim Morton.

Seu livro abre a cabeça para uma percepção de quão simbiótica a vida é, o que nos ajuda a captar melhor os desafios ambientais – e a lidar com eles. Mas como dialogar com pessoas que negam a ciência, refutam o aquecimento global e não respeitam o outro?

É o que este livro está tentando fazer. Tento falar gentilmente com pessoas que pensam que não se importam. Realmente escrevi para os americanos, mas ainda não funcionou tão bem porque não falo sobre Jesus. Estou tentando consertar isso em um novo livro chamado Hell: Towards a Christian Ecology (“Inferno: Rumo a uma Ecologia Cristã”, em livre tradução)

Escrevi Ser Ecológico com uma voz falsamente ingênua à la David Byrne [músico, compositor e fundador da banda Talking Heads], uma espécie de voz irônica do homem comum americano. É o melhor que pude fazer. Iremos lançá-lo novamente na esteira de Hell, pois o interesse por ele já está fazendo meu blog receber 200 mil acessos por dia.

Acho que pessoas como eu estávamos fazendo tudo errado. Vomitamos fatos científicos, mas eles parecem o Livro do Apocalipse. Fazemos as pessoas se sentirem estúpidas e más. Escrevi este livro para ajudar as pessoas a se sentirem inteligentes e boas. E aspiro falar com todas aquelas que gostavam de ser chamadas de estúpidas e más – um número minúsculo de pessoas.

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tim morton
(Foto: Emilija Škarnulytė/Reprodução)

Ninguém se importa ainda. Sabemos o que fazer, mas, se estivéssemos anunciando a Coca Cola, pessoas como eu seriam demitidas por estar errando. Precisamos de uma razão para querer fazer tudo isso, para parar de queimar combustíveis fósseis. Para amar. Acordar de manhã e pensar: “Uau, estou tão feliz por estar trabalhando na coisa mais excitante, sexy e carinhosa do mundo!” Na maioria das vezes, parecemos que queremos que as pessoas tenham uma sensação de ressaca miserável. E aí, sim, deveríamos ser demitidos.

Então a resposta básica é: pessoas como eu deveriam falar muito, muito gentilmente. Gritar obviamente não funcionou. Lamento parecer tão aparentemente antirrevolucionário. Mas a vingança não é um bom caminho.

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Muitos autores propõem que as ciências humanas deveriam abraçar mais o estudo de (e o respeito por) outras espécies, numa perspectiva que chamam de pós-humanista. Como avalia esse movimento?

Obviamente acho que ele é ótimo e bastante significativo. Mas há uma coisa muito importante a considerar aqui. A maneira como nós, humanos, tratamos uns aos outros é como também tratamos as outras formas de vida. Atualmente estou trabalhando muito para escrever sobre a supremacia branca e o patriarcado por esse motivo. Essas são áreas às quais pessoas como eu devem prestar atenção, e o tempo todo.

Não creio que a gente deva se preocupar com rótulos como “pós-humanista”. Tornar-se plenamente humano seria melhor: tornar-se plenamente humano reconhecendo e respeitando a nossa identidade em relação à biosfera. Crescemos na biosfera assim como as maçãs crescem em uma árvore. Somos feitos disso. Somos feitos de outras formas de vida e dependemos delas para respirar.

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Em Ser Ecológico, você menciona e explora ideias de alguns grandes nomes do pensamento ocidental, como Martin Heidegger e Jacques Derrida. Do seu ponto de vista, que autor ou ideia filosófica guardaria a chave para encarar estes tempos que atravessamos?

Eu realmente não recomendo ninguém, exceto eu mesmo (risos). Na verdade, temo que não haja algo nesse sentido. Eu leria meu livro O Pensamento Ecológico, se quiser saber as razões profundas pelas quais penso dessa maneira. É realmente difícil responder a essa pergunta. A maior parte do meu trabalho é uma análise crítica do pensamento ambientalista, incluindo a filosofia.

As pessoas sempre interpretam a Filosofia de uma forma errada. Acham que ela consiste em obedecer ou respeitar grandes ideias. Isso não está certo. Filosofia significa o amor à sabedoria. Existem duas emoções na palavra “filosofia”: amor e sabedoria. Se você tivesse que escolher entre “sabedoria significa um conjunto de instruções ou dicas” e “sabedoria é um sentimento”, então a sabedoria é definitivamente um sentimento. O sentimento de “sábio”. Amar esse sentimento: isso é filosofia.

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Acima da Academia de Platão havia uma placa que dizia: “Se você não gosta de geometria, vá embora agora”. Geometria na época significava resolver problemas sem números, apenas sentindo a Terra (“geo-metria”), com régua e compasso. Caminhando pela Terra, como Jesus rabiscando na areia.

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