O mundo da culinária é um dos mais ricos em novidades. Por isso não deixa de ser curioso ver o retorno glorioso de um produto bem tradicional. Tradição, aliás, é algo que ele evoca desde o nome. Falo do queijo “cottage”.
A palavra “cottage” – que se pronuncia “cótage”, embora muitos, de forma abrasileirada, digam “cotáge” – indica uma pequena casa de campo. Essa aura de algo caseiro e frugal é parte do seu apelo. Não por acaso, uma marca antiga brasileira trazia uma casinha estampada na tampa da embalagem.
É tradicional, também, porque se trata de uma preparação antiga. O cottage é um queijo fresco, não maturado, produzido pela coagulação do leite, separando a coalhada e drenando o soro. Não se sabe exatamente quando ele começou a ser feito, mas a expressão “cottage cheese” aparece documentada nos Estados Unidos no século 19, e foi ali que o produto ganhou escala industrial e se tornou especialmente popular.
Já no começo do século 20, durante a Primeira Guerra Mundial, o cottage foi promovido como alimento rico em proteína que poderia ajudar a substituir a carne. Algumas décadas mais tarde, encontrou outro território: o da alimentação para emagrecer.
Até a estrela das estrelas cedeu a ele, conforme mostra um lote de documentos de Marilyn Monroe leiloado há alguns anos. Guardado entre livros de receitas e recortes de jornal, um programa alimentar datilografado detalhava o que ela comia. Em meio a mingau de aveia, torradas e gemadas, lá estava o cottage, figurando ao lado de ovos do almoço da atriz.
Nas décadas de 1960 e 1970, tornou-se presença frequente nas dietas de quem procurava uma comida leve, com pouca gordura e boa quantidade de proteína. E assim foi, por anos, que ele continuou presente, sempre associado ao emagrecimento. Para isso, ele podia ser servido com frutas, em saladas, ou em um lanche, às colheradas.
Sua imagem, porém, foi envelhecendo junto com aquela ideia de alimentação “light”. Nos Estados Unidos, onde sua história comercial é mais bem documentada, o consumo caiu gradualmente a partir do auge dos anos 1970, enquanto outros queijos e, sobretudo, o iogurte ocupavam espaço crescente.
Nos últimos anos, ele tem sido reinventado em receitas que, em geral, buscam modificar sua textura granulosa, que não agrada todo mundo. De minha parte, sempre o considerei um aliado poderoso. Seu sabor suave pode não ser tão chamativo, mas ele é rico nas possibilidades de combinação. Em minha cozinha, para citar apenas uns poucos exemplos, ele rende deliciosas panquecas doces sem farinha, faz a sopa de abóbora mais cremosa e dá liga a hambúrgueres de salmão.
Durante os tempos em que ele perdeu seu papel principal, houve algumas tentativas de mudar seu figurino – por exemplo, vendendo-o já misturado com geleia para compor um alimento de rápido consumo.
Mas, na verdade, ele não precisa de tanta reinvenção. O que tem sido valorizado no cottage é o que sempre esteve ali: ele é fresco, versátil e tem bastante proteína. O mesmo atributo que um dia o tornou companheiro das dietas agora o aproxima de uma alimentação que procura saciedade e reforço nutricional para ganho de músculos e força.
Como tantas tradições redescobertas, o cottage não mudou. Quem mudou fomos nós.





