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Claudio Lottenberg

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Mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), é presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde e do conselho do Hospital Albert Einstein
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Apontando para o fim da emergência

OMS ajusta estratégia contra o Sars-Cov-2, de olho em encerrar a fase emergencial da pandemia neste ano

Por Claudio Lottenberg
4 abr 2022, 15h08

Passados pouco mais de dois anos desde que a pandemia de Covid-19 foi decretada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) faz um aperfeiçoamento no mapa do caminho para o fim da fase emergencial. No dia 30 de março, a organização divulgou um plano com ajustes estratégicos para o combate à doença – e tais medidas ajustadas, diz a organização, “se implementadas de forma rápida e consistente nos níveis nacional, regional e global, permitirão que termine a fase aguda da pandemia”.

Os cenários considerados pela OMS na nova estratégia são três – todos com projeção para 12 meses à frente. O caso base – o mais provável, segundo a organização – é o de que o Sars-Cov-2 continuará a evoluir, mas a doença deverá se tornar menos severa. Para isso, contribuem não só o avanço das infecções como da própria vacinação – segundo dados do site da OMS, foram administradas 11 bilhões de doses de vacina em todo o mundo até 27 de março (dado mais recente disponível). No Brasil, pouco menos de 75% já completou o primeiro ciclo vacinal (dose única ou duas doses) e 36% já recebeu a dose de reforço.

Não se pode esquecer, no entanto, que há um desequilíbrio no alcance da vacinação: regiões pobres do mundo continuam com parcela ínfima de suas populações imunizadas. De acordo com o Our World in Data, apenas 14,5% de quem vive em países de baixa renda recebeu ao menos uma dose. Em tais países, as dificuldades em se fazer com que a vacina chegue aos braços de todos são de várias ordens – desde a falta de infraestrutura logística até questões políticas e dificuldades econômicas. Ainda que o cenário base da OMS seja consistente, enquanto não se atacar essa desigualdade que mantém países pobres muito para trás no avanço da imunização, os riscos de novos surtos e mutações no coronavírus estarão bastante presentes.

No melhor cenário, eventuais variantes futuras seriam significativamente menos graves, e as vacinas atuais ainda seriam eficazes, diminuindo a necessidade de reforços periódicos frequentes ou grandes alterações nos imunizantes já desenvolvidos. Já o pior cenário seria o do surgimento de uma variante mais virulenta e transmissível, mais resistente às vacinas ou que debilite ainda mais a pessoa infectada – em particular nos grupos de risco. Isso forçaria alterações nas vacinas atuais e todo um redirecionamento de recursos. Seria como voltar à estaca zero.

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A meta de encerrar a fase emergencial da pandemia neste ano passa por reduzir e controlar a incidência de infecções, e prevenir, diagnosticar e tratar as pessoas infectadas. Isso envolve intensificar a vigilância das tendências de transmissão e manter a testagem ligada ao sequenciamento genômico com um alcance geográfico maior. Além disso, a OMS também trabalha com organizações para manter a vigilância da saúde de animais (suscetíveis de portar o Sars-Cov-2).

A vacinação tem e continuará a ter papel fundamental. Para que se alcance os 70% da população global imunizada, é preciso focar, diz a OMS, na vacinação completa dos mais vulneráveis clinicamente e usando um calendário ideal de vacinas. Ao alcançar 100% de cobertura vacinal nos grupos mais clinicamente sensíveis, o caminho para que 70% do mundo esteja vacinado ficará mais ao alcance. Mais detalhes da nova estratégia da OMS podem ser encontrados aqui.

Cabe considerar alguns parâmetros e atenuantes. A estratégia ajustada da OMS não equivale ao anúncio do fim da pandemia – que não está à vista e talvez não esteja por um tempo ainda indeterminado. Nem mesmo trará de volta do dia para a noite o mundo pré-covid-19. Mas apontam alguns refinamentos, que levam em conta avanços obtidos nos últimos dois anos. A marca trágica de mais de 6,1 milhões de óbitos já está na História. Mas o trabalho científico e a condução do processo de vacinação pelos diversos países colocam a luta contra a Covid-19 num patamar mais favorável. Parafraseando a canção de Duke Ellington, famosa na voz de Ella Fitzgerald, o mundo pode estar “começando a ver a luz”.

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