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Pesquisa mostra que é possível enxergar o próprio movimento no escuro

Durante experimento, metade dos voluntários foi capaz de acompanhar a movimentação de suas mãos enquanto estavam com olhos vendados

Por Da Redação - Atualizado em 6 maio 2016, 16h16 - Publicado em 31 out 2013, 18h33

Um novo estudo sugere que metade dos seres humanos é capaz de enxergar os próprios movimentos mesmo na mais absoluta escuridão. Cerca de 50% dos voluntários analisados pelos cientistas conseguiram ver sua própria mão se movendo enquanto estavam com os olhos completamente vendados – o que foi comprovado por rastreadores que mediram a posição de seus olhos. A pesquisa, que foi publicada nesta quarta-feira na revista Psychological Science, sugere que a visão não é formada apenas pelas informações absorvidas pelos olhos, mas a partir de sua fusão com os outros sentidos do corpo.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Kinesthesis Can Make an Invisible Hand Visible

Onde foi divulgada: periódico Psychological Science

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Quem fez: Kevin Dieter, entre outros pesquisadores

Instituição: Universidade de Rochester, EUA, entre outras

Dados de amostragem: 129 voluntários, que tiveram seus olhos vendados. Os pesquisadores pediram para que eles movimentassem suas mãos em frente à cabeça, e tentassem acompanhar o movimento com os olhos

Resultado: Metade dos voluntários afirmou ter conseguido enxergar os movimentos de suas mãos. Rastreadores oculares confirmaram que os olhos desses indivíduos estavam, de fato, seguindo suas mãos

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“Se levássemos em conta o que sabíamos sobre o funcionamento da visão, poderíamos concluir que não é possível enxergar na escuridão total. Essa pesquisa mostra o contrário: os nossos próprios movimentos podem transmitir sinais sensoriais que criam percepções visuais no cérebro, mesmo na ausência total de dados ópticos”, diz Duje Tadin, professor de ciência cognitiva na Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, um dos autores do estudo.

A pesquisa confirma um fenômeno relatado por exploradores de cavernas profundas, que dizem ser capazes de ver as próprias mãos mesmo sem nenhuma luz por perto. “O que acabamos percebendo como visão, na verdade, é uma função tanto de nossos cérebros como de nossos olhos”, afirma Kevin Dieter, pesquisador da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, que também participou da pesquisa.

Olhos vendados – Segundo os cientistas, descobrir se alguém é capaz de enxergar seus movimentos no escuro não é uma tarefa simples. Não basta perguntar ao voluntário, os cientistas precisam ter uma maneira objetiva de medir essa experiência que é, em sua essência, subjetiva. “Como poderíamos determinar se outras pessoas estavam realmente vendo a sua própria mão em movimento ou se estavam apenas respondendo o que pensavam que os cientistas queriam ouvir?”, questiona Randolph Blake, pesquisador da Universidade Vanderbilt.

Para responder à questão, os pesquisadores desenvolveram um novo tipo de experimento, que foi aplicado em 129 voluntários humanos. O primeiro teste criava uma falsa expectativa nesses indivíduos. Eles foram levados a acreditar que deveriam acompanhar os movimentos de suas mãos em condições de baixa luminosidade, usando uma venda com pequenos furos. Acontece que os furos eram falsos, e eles estavam, na verdade, no escuro.

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No segundo teste, os mesmos voluntários tiveram os olhos fechados com vendas semelhantes, mas dessa vez sem os “furos”. Um terceiro experimento pediu para os voluntários acompanharem os movimentos das mãos de um dos cientistas enquanto estivessem com os olhos vendados.

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Como resultado, cerca de metade dos indivíduos relatou ter conseguido enxergar sua própria mão se movimentando na frente de seus olhos – tanto na venda “furada” quanto na normal. O número de voluntários que viram os movimentos do pesquisador foi muito baixo – quase nulo -, o que mostrou a importância do próprio movimento nessa experiência visual.

J. Adam Fenster, Universidade de Rochester

Rastreadores

Rastreadores /

Os pesquisadores usaram rastreadores oculares para descobrir se os olhos dos voluntários estavam realmente seguindo os movimentos de suas mãos

Movimentos no escuro – Para confirmar que os voluntários estavam realmente enxergando suas mãos, os pesquisadores equiparam em cada uma das vendas um rastreador ocular computadorizado. Usando luz infravermelha – invisível para os seres humanos – eles eram capazes de acompanhar os movimentos de seus olhos em plena escuridão.

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Segundo os pesquisadores, o movimento do olho humano dentro do globo ocular só é suave se ele estiver seguindo um objeto. Se não estiver seguindo nada – o que acontece no escuro total – ele será errático. “Não é possível apenas imaginar um alvo e ter os movimento dos olhos de forma regular”, explica David Knill, pesquisador da Universidade de Rochester que também participou da pesquisa. “Se não houver um alvo em movimento, os movimentos oculares serão visivelmente irregulares.”

Ao medir a posição dos olhos dos voluntários, os cientistas descobriram que aqueles que afirmavam ver a própria mão no escuro eram justamente aqueles que tinham os movimentos oculares mais suaves e regulares. Esses indivíduos conseguiram acompanhar seu movimento com precisão durante 46% do tempo, ante 20% daqueles que não estavam enxergando nada.

Sinestesia

Por não serem comuns, os pesquisadores tiveram de recrutar voluntários sinestésicos de várias cidades americanas. Uma delas, no entanto, estava logo ao lado, trabalhando como técnica em um dos laboratórios envolvidos no estudo. “Quando criança, eu pensava que todo mundo associava cores a letras. Para mim, a letra A está sempre em amarelo, mas Y é de um amarelo mais alaranjado”, diz Lindsay Bronnenkant, funcionária da Universidade de Rochester, que enxerga B em azul marinho, C em um laranja queimado, e assim por diante.

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Na infância, ela pensava que o fenômeno era comum, “como quando você sente o cheiro de torta de maçã e lembra de sua avó.” Hoje, ela sabe o que acontece consigo, mas não consegue lembrar de nenhum momento de sua vida onde não associava números e letras a cores. Lindsay se questiona se as cores específicas que associa com números não tem origem nas bolas de bilhar que sua família possuía em sua infância.

Ao participar do experimento, ela foi uma das que relatou ter enxergado os movimentos de sua mão: “O que eu vi foi um borrão. Foi muito fraco, mas era quase como se eu estivesse olhando para uma fonte de luz.”

Letras coloridas – Além de realizar os testes em voluntários normais, os pesquisadores também recrutaram indivíduos que experimentavam em seu cotidiano uma mistura de seus sentidos, chamada sinestesia. Esse tipo de fenômeno faz com que a pessoa, por exemplo, veja cores enquanto escuta música e até mesmo sinta o gosto dos sons. O estudo se focou em um tipo específico de sinestesia, conhecida como de grafema-cor, que faz com que os indivíduos sempre enxergam as letras e os números em cores específicas.

Como resultado, os sinestésicos relataram ver a sua mão no escuro com ainda mais clareza do que os outros indivíduos. Como um exemplo extremo disso, uma voluntária sinestésica exibiu um movimento de olhos quase perfeito – com precisão de 95% -, enquanto seguia sua mão na escuridão. Em outras palavras, sua visão funcionou tão bem quanto se as luzes estivessem acesas.

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Segundo os cientistas, isso mostra que as pessoas com maior conectividade entre os sentidos são justamente aquelas que presenciam o fenômeno de forma mais intensa. “A ligação com a sinestesia sugere que a nossa capacidade de ver o próprio movimento é baseada nas conexões neurais existentes entre os diversos sentidos”, diz Knill. Ou seja, o ato de ver seu próprio movimento no escuro é, também, um tipo de sinestesia.

Aprendendo a ver no escuro – A pesquisa sugere que a habilidade de enxergar os próprios movimentos no escuro não é inata, mas aprendida. Os humanos são expostos, desde a primeira infância, aos movimentos da própria mão tantas vezes que se tornam capazes de prever a imagem dessa movimentação, mesmo sem os dados visuais reais.

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“Nossos cérebros são muito bons em encontrar padrões confiáveis. Uma de suas funções é justamente essa. E esta associação com os movimentos das mãos é tão repetida ao longo da vida que nossos cérebros aprendem sobre ela e a exploram”, diz Tadin.

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