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Missão Rosetta: por que o pouso em um cometa é tão importante para a ciência

Complexa e inovadora, a missão pode trazer respostas sobre a formação do Sistema Solar e a origem da água — e da vida — na Terra

Por Juliana Santos Atualizado em 10 dez 2018, 10h25 - Publicado em 12 nov 2014, 18h22

Uma espera de mais de dez anos chegou ao fim nesta quarta-feira, quando uma missão espacial pela primeira vez pousou em um cometa. O feito foi comemorado por astrônomos e curiosos no mundo todo, quando às 14h03 (do horário de Brasília) a confirmação do pouso chegou à base de controle da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), na Alemanha.

Estudar cometas é importante porque eles são “sobras” bem preservadas da formação do Sistema Solar, há 4,5 bilhões de anos. “Os cometas vieram de uma região remota do Sistema Solar e são compostos por materiais de sua origem”, explica Gustavo Rojas, astrofísico da Universidade Federal de São Carlos. O módulo Philae vai estudar a superfície do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, buscando a água e o material orgânico presente nesse corpo celeste que, de acordo com algumas teorias, podem ter sido responsáveis por trazer a água ou até mesmo os componentes orgânicos necessários ao surgimento da vida para a Terra. Ele vai analisar a composição do gelo do cometa, para ver se corresponde à composição de isótopos da água terrestre.

O conhecimento adquirido com a missão Rosetta pode ser útil até mesmo para proteger a Terra de asteroides em rota de colisão no futuro. “Esse não era o objetivo inicial da missão, mas a tecnologia do pouso em um objeto pequeno com gravidade baixa que se move muito rápido é certamente bem-vinda”, diz Rojas.

O cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko não é tão bonito de perto quanto aqueles que costumamos observar da Terra. Na posição em que se encontra no espaço, ele é composto apenas pelo núcleo, um corpo de gelo e pedaços de rocha. Somente quando se aproximam do Sol os cometas emitem gases e poeira de seu interior, devido ao aquecimento, e ganham sua cauda brilhante característica. Como Rosetta alcançou o corpo celeste ainda distante do Sol, poderá acompanhar toda a sua transformação durante a aproximação com a estrela – uma pesquisa inédita.

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Fazendo história – Afora a importância sobre os estudos da origem do Sistema Solar e da técnica para eventuais pousos em asteroides, o sucesso da missão é um feito e tanto para a exploração espacial. Extensos cálculos foram necessários para Rosetta viajar por dez anos para encontrar o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko no espaço – atualmente a 509 milhões de quilômetros de distância da Terra – e se posicionar no lugar e na hora certos para liberar o módulo Philae.

No momento do pouso, a sorte esteve ao lado dos cientistas. Quando Rosetta entrou na órbita do 67P/Churyumov-Gerasimenko, descobriu que seu formato não era o de uma batata, como esperavam os responsáveis pela missão, mas semelhante a um pato de borracha, e que sua superfície era acidentada, com buracos e desníveis. Diante desse cenário, os cientistas da ESA estimaram a probabilidade de sucesso da manobra em 50%. “Esse foi o pouso mais difícil já feito na história, mais do que na Lua e em Marte”, afirma Gustavo Rojas.

Quando Philae foi liberado, estava a 22,5 quilômetros do centro do cometa, que viaja a 64.800 quilômetros por hora, e tinha uma área de 500 metros de diâmetro para pousar – o 67P/Churyumov-Gerasimenko mede 3 por 5 quilômetros. O robô ainda tinha de cair de pé e assim ficar, porque, se tombasse, não seria possível reerguê-lo. “É como jogar um gaveteiro de um avião em movimento e fazê-lo cair em um campo de futebol”, compara Rojas. No caso de Philae, com alguns agravantes: voos comerciais voam em altitude de cruzeiro, a cerca de 11 quilômetros da superfície – metade da distância entre Rosetta e o cometa – e o local de pouso estava girando. “Assim como a Terra, o cometa gira ao redor do Sol e de si mesmo”, explica o cientista.

Para Rojas, o feito é comparável ao pouso do primeiro robô em Marte, o Viking 1, que chegou ao planeta vermelho em junho de 1976, ou ao momento em que as sondas Voyager 1 e 2 enviaram as primeiras imagens feitas de perto de Júpiter, Urano e Netuno, e descobriram que esses planetas gigantes tinham anéis e uma grande quantidade de satélites, na década de 1980. “Foi uma manobra fantástica. Mesmo que Philae venha a se soltar, ter realizado o pouso é um feito extraordinário”, diz o pesquisador.

https://www.youtube.com/watch?v=scBqlGJkxF4

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