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Estudo da Harvard revela o verdadeiro idioma universal: o canto

Pesquisa demonstra que pode haver pontos em comum nas canções produzidas em todo o mundo, como se houvesse um esperanto musical

Por Filipe Vilicic, Sabrina Brito Atualizado em 10 dez 2019, 10h58 - Publicado em 6 dez 2019, 06h00

Poucas atividades são tão representativas da diversidade cultural do ser humano como a música — há o katajjaq inuíte, o canto que sai do fundo da alma e da garganta de mulheres para expressar sentimentos opostos como a alegria e a tristeza; o nôgaku japonês, dramaticamente pontuado por flautas de bambu; o samba de roda brasileiro, acompanhado pelo agogô e pelo ganzá. Não haveria, enfim, expressões culturais tão distintas umas das outras quanto aquelas produzidas pela voz e por instrumentos, registros de determinados momentos históricos e de diferentes ambientes sociais. Um estudo conduzido por especialistas da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostrou que, por trás de tanta variedade, pode haver algo ainda mais fascinante — pontos em comum nas canções produzidas em todo o mundo, como se houvesse um esperanto musical.

A equipe do cientista cognitivo Samuel Mehr pesquisou a música de 315 culturas em trinta regiões do planeta. O passo inaugural foi a criação de um riquíssimo banco de dados, chamado de Histórico Natural da Canção, no qual foram catalogadas mais de 5 000 faixas — que caberiam num iPhone. Identificaram-se estruturas e elementos que unificam a música, a primeira de todas as artes, cuja origem se confunde com a da própria civilização. Anotou-se, como ponto de partida, o que há em comum em toda e qualquer composição com base em três características principais: o grau de formalidade da partitura, a animação do intérprete e se o tema possui ou não conotação espiritual. Na sequência, avaliou-se como o público interpreta o resultado. A conclusão: é possível deduzir o contexto de uma boa melodia mesmo quando não se compreende o idioma falado. Isso porque a audiência decifra a mensagem com base em três atributos da voz: o tom, o ritmo e o alcance.

Os cientistas da Harvard dividiram o material compilado em quatro categorias de canção: as de ninar, as cantigas de amor, as que pretendem oferecer a cura (espiritual, evidentemente) e as toadas para dançar (veja os detalhes no quadro abaixo). Segundo os pesquisadores, qualquer harmonia, de qualquer lugar, pode ser classificada nessas divisões. Nas composições amorosas, por exemplo, revelou-se que a levada costuma ser lenta e informal, quase displicente — seja um samba, seja um rock. As toadas “de cura” são formais, animadas e de alto teor espiritual — como nos clássicos do gospel. “Estamos começando a compreender quais são os blocos essenciais que formam a música”, disse Sam Mehr, um dos autores da pesquisa — e também músico —, ao divulgar o trabalho. Para o psicólogo canadense Steven Pinker, autor de Como a Mente Funciona e colaborador de Mehr, a música não seria uma adaptação evolutiva, e sim um subproduto da percepção auditiva, do controle de movimentos, da linguagem e de outras faculdades do ser humano. Pinker acredita que os novos resultados combinam com sua hipótese. “As características universais da psicologia humana inclinam as pessoas a compor e apreciar canções com certos padrões rítmicos ou melódicos que estão naturalmente associados a certos desejos e estados de ânimo”, diz Pinker.

A revelação de uma gramática musical amplamente compreensível anda de mãos dadas com a tese clássica — e permanentemente posta em discussão — do linguista americano Noam Chomsky em torno da aquisição de palavras. Para Chomsky, existiria uma gramática universal, inata, resultado da evolução da espécie, embutida no cérebro desde tenra infância e que serviria de base para qualquer idioma. Na última década, porém, essa noção tem sido contestada por especialistas como o americano Daniel Everett, para quem “o bloco fundamental da linguagem é a comunidade”, ou seja, não a biologia. Talvez Chomsky esteja errado, por mais elegantes que sejam suas elaborações. Ou talvez ele só tenha atrelado seu raciocínio à ferramenta equivocada: a universalidade pode estar não na habilidade humana de falar e escrever, e sim no canto.

A música como dicionário afeito a compreensão ilimitada ecoa algo que, na aparência, soa óbvio, mas cujos detalhes são interessantes demais para ser deixados de lado — e que confirmam, na prática, a linda frase de um dos clássicos de Stevie Wonder, Sir Duke, do álbum Songs in the Key of Life, de 1976, composto em homenagem a Duke Ellington: “A música é um mundo em si mesmo / com uma linguagem que todos entendemos”. O resultado: uma canção de ninar é uma canção de ninar, seja de um pescador do Nordeste brasileiro, seja de um esquimó do Ártico canadense. É como na boa arquitetura: a forma segue a função.

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Publicado em VEJA de 11 de dezembro de 2019, edição nº 2664

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