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A ciência por trás de ‘Planeta dos Macacos — A Origem’

Conheça os erros e acertos científicos do filme

Por Jones Rossi Atualizado em 6 Maio 2016, 17h01 - Publicado em 2 set 2011, 22h36

A disparidade entre a ciência mostrada no cinema e a ciência real costuma ser enorme. Mas há filmes que, se não são inteiramente ‘cientificamente corretos’, usam pesquisas e conceitos reais com certa verossimilhança. É o caso de Planeta dos Macacos – A Origem, feitas, é claro, as várias e devidas ressalvas.

Não é segredo que os símios do filme ficam mais inteligentes. Uma pesquisa conduzida com o intuito de curar a doença de Alzheimer, usando um vírus, faz com que sejam criadas novas sinapses, conexões entre os neurônios. Este é o primeiro ponto do filme em que, apesar de partir de uma premissa interessante – o fato de não hevar hoje remédio capaz de curar o Alzheimer -, o resultado final é fantasioso.

“O foco dos remédios pesquisados atualmente é inibir ou degradar a proteína beta-amiloide”, explica David Schlesinger, pesquisador no Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein. A proteína beta-amiloide se acumula no cérebro e prejudica a transmissão de informações entre os neurônios, prejudicando a memória e outras funções cognitivas.

Sem energia – O medicamento mostrado no filme aumentaria as sinapses dos pacientes, mas aqui há mais problemas. “A doença de Alzheimer não é causada por um problema de sinapses”, diz Schlesinger. “Então, o remédio não adiantaria nada.” Sem contar que aumentar o número de sinapses seria inviável, segundo a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. “Existe um número máximo de sinapses por quantidade de tecido cerebral”, diz Suzana.

O problema do aumento hipotético das sinapses seria o consequente aumento do consumo de energia pelo cérebro. Embora represente apenas 2% do peso corporal, o cérebro consome 25% da energia produzida pelo corpo. Um aumento do número de sinapses seria inviável energeticamente.

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Quanto ao uso de um vírus, os roteiristas acertaram por tabela. Foi anunciada, na semana passada, uma pesquisa que pela primeira utiliza vírus modificados geneticamente para combater células cancerosas. A aplicação de remédios assim no cérebro seria, no entanto, extremamente complicada. “É muito difícil controlar onde e quando os vírus atuam”, afirma Schlesinger.

Planeta dos camundongos – Talvez o principal problema do filme seja que, embora os macacos sejam usados em várias pesquisas médicas, inclusive neurológicas, não são usados no teste de medicamentos contra o Alzheimer.

Para este fim, embora não constituam o que os cientistas chamam de “modelo ideal” (organismo usado para replicar as reações que os seres humanos teriam a uma determinada substância), são utilizados camundongos alterados geneticamente para desenvolver Alzheimer.

Os camundongos, aliás, foram os únicos animais modificados geneticamente para ganhar supercérebros. Uma pesquisa realizada pelos pesquisadores Anjen Chenn e Christopher Walsh em 2002 modificou a produção de uma proteína que fez com os camundongos desenvolvessem cérebros maiores que o normal. A pesquisa tinha como objetivo estudar os mecanismos da neurogênese, nascimento de novos neurônios, e foi bem sucedida neste aspecto. Mas nenhum dos camundongos com o cérebro gigante chegou a nascer e foi impossível fazer testes determinando se eles eram mais espertos que os outros.

Voz de macaco – Um dos símios mostrados no filme consegue, a certa altura, falar como um humano. Mesmo que fosse possível tornar os gorilas, chimpanzés, orangotangos e bonobos – espécies retratadas no filme -inteligentes a este ponto, o aparelho vocal deles não tem a anatomia necessária para fazer sons iguais aos dos humanos.

Mas o filme acerta quando mostra os símios usando a linguagem de sinais. Projetos realizados por cientistas pioneiros como o americano Herbert Terrace, professor do departamento de psicologia da Universidade de Columbia, ensinaram chimpanzés a usar a linguagem humana para se comunicar. O experimento, realizado nos anos 1970, ensinou Nim Chimpsky (uma brincadeira com o linguista Noam Chomsky) a combinar 125 sinais para se comunicar. E assim, como o personagem de James Franco faz com o filhote de chimpanzé Caesar, ele foi criado como um humano pelos pesquisadores.

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