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Sombra do clã político de Jairinho paira sobre testemunhas do caso Henry

Mudança de versão da babá do menino de 4 anos expôs o estranho padrão de comportamento dos envolvidos na investigação: uns falam demais, outros se calam

Por Sofia Cerqueira, Marina Lang Atualizado em 22 out 2021, 09h42 - Publicado em 22 out 2021, 06h00

A escandalosa mudança de versão de Thayna de Oliveira Ferreira, em depoimento à Justiça no início do mês, expôs o estranho padrão de comportamento que caracteriza algumas testemunhas do trágico caso Henry Borel. Thayna, babá do menino de 4 anos assassinado em março no apartamento em que morava, no Rio de Janeiro, com o padrasto, o ex-vereador Jairo Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e a mãe, Monique Medeiros, fala demais — já contou três histórias diferentes sobre a família, um clã político comandado pelo pai de Jairinho, o deputado estadual Coronel Jairo (Solidariedade), com o qual ela e vários parentes têm laços antigos. Outras duas testemunhas de acusação, ao contrário, não falaram: deixaram de comparecer ao 2º Tribunal do Júri fluminense. Uma é a empregada doméstica Leila Rosangela Mattos, que trabalhava para o vereador e a mulher e segue prestando serviços à família. Outra é a cabeleireira Tereza dos Santos, que atendia Monique quando Henry relatou à mãe, pelo celular, as agressões de “tio” Jairinho.

De todas, a mais enrolada é a babá Thayna, que agora pode ser investigada por falso testemunho em juízo, depois de haver sido indiciada por mentir na delegacia. Na primeira vez que falou à polícia, Thayna disse que a família era “harmoniosa”. Diante de suas conversas no celular com Monique que mostravam o contrário, voltou atrás e narrou ao menos três episódios de agressões de Jairinho contra Henry ocorridos quando estava no apartamento. No tribunal, de novo, torceu a história: alegou se sentir “usada” por Monique e induzida por ela a pensar que Jairinho era “um monstro”.

Sua relação com o clã é antiga. Antes de ser babá, trabalhou como cabo eleitoral do ex-vereador nas últimas duas eleições. Em 2015, quando ele era líder do governo na Câmara de Vereadores, chegou a ser nomeada para um cargo na prefeitura. Seu pai e seu marido igualmente atuaram em campanhas de Jairinho, que ainda teve um tio dela como assessor pessoal e ajudou uma tia a ser nomeada para cargo público. Mais: a mãe de Thayna trabalha até hoje na casa do Coronel Jairo, como babá de seu neto. “Evidentemente, o depoimento dela foi mentiroso, só não sabemos se por intimidação ou vantagem financeira”, afirma o promotor Fábio Vieira. Procurada, Thayna não quis se manifestar.

A empregada Leila não apareceu no tribunal porque não foi localizada pelo oficial de Justiça. Como Thayna, ela tem relação próxima com a família de Jairinho. Sua mãe, Geralda, contou a VEJA que Leila foi empregada por dois anos na casa do Coronel Jairo, onde continua indo passar roupa aos sábados. Contatada por telefone, a empregada despistou: “Esse é um assunto chato, que perturba, entendeu? Estou aproveitando que as pessoas se esqueceram de mim”. A cabeleireira Tereza tampouco recebeu a intimação — forneceu à polícia um endereço diferente do salão do shopping onde trabalha. Ela tem dito a interlocutores que “o que tinha para falar, já falei”. Foi procurada por VEJA no salão, mas, extremamente nervosa, não disse uma palavra.

Em paralelo, advogados de Leniel Borel, pai de Henry, que fazem parte da equipe de acusação, relatam tentativas de intimidação em ligações de números privados. Em uma delas, de madrugada, um homem disse: “O que vocês querem? Já não está bom o que vocês têm?”. Outro desconhecido avisou: “Fica no seu canto. Você está invadindo o espaço dos outros e não vai querer que invadam o seu”. O próprio Borel disse em seu depoimento que foi seguido por um carro da polícia por 2 quilômetros, sem ser abordado. As próximas audiências, dessa vez para ouvir as pessoas listadas pelas defesas do ex-vereador e de Monique, estão marcadas para 14 e 15 de dezembro. A lógica — de mudanças de versões das testemunhas e o silêncio de outras — deve continuar.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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