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O dono da lavanderia: as conexões e os negócios do ‘doleiro dos doleiros’

Depois de passar mais de um ano foragido, Dario Messer foi preso em um apartamento em São Paulo

Mensalão, petrolão, turma do guardanapo — onde quer que haja um propinoduto, lá estará Dario Messer, de 60 anos, preso em São Paulo no dia 31, depois de passar um ano e três meses foragido. Denominador comum de boa parte dos escândalos de corrupção que vieram à tona nas duas últimas décadas, Messer era o homem que viabilizava e garantia transferências milionárias de dinheiro sujo intermediadas por outras figuras do mercado financeiro, situadas um degrau abaixo na cadeia da criminalidade — daí o título de “doleiro dos doleiros”. Nesse ramo de negócios, chegou a movimentar 1,6 bilhão de dólares, em uma teia de transações que se espalhou por 52 países. Cidadão paraguaio e refugiado no país vizinho desde 2014, foi capturado por policiais federais no apartamento da namorada, a advogada Myra Athayde, situado nos Jardins. Doze agentes estouraram a porta do imóvel, com vista para o Parque Ibirapuera e localizado no 10º andar do prédio.

A captura do doleiro deve aumentar a amplitude das investigações, que, derivadas da Lava-Jato, já identificaram uma portentosa lista de pessoas que recorreram a seus serviços. Só o banco Evergreen (EVG), que ele operou por cerca de cinco anos em Antígua e Barbuda, minúsculo paraíso fiscal caribenho, chegou a ter mais de 400 clientes, todos na mira da PF e do Ministério Público. A relação de pessoas envolvidas na sua rede (veja abaixo) vai de bicheiros à Odebrecht, passando pelo caudaloso canal de propinas montado pelo ex-governador fluminense Sérgio Cabral — condenado a 216 anos de cadeia, e subindo.

A Cabral S.A. utilizou o esquema de Messer para mandar quase 320 milhões de reais ilícitos para o exterior. A Odebrecht recorria ao caixa do doleiro quando precisava de recursos emergenciais para políticos no seu bolso, e só de uma vez dele tomou emprestados 12 milhões de dólares. Uma pista da dimensão de sua movimentação financeira pode ser encontrada no acordo de delação premiada firmado recentemente pelos filhos Dan, Denise e Deborah (sim, diante das provas obtidas, os filhos aceitaram delatar o pai) e pela ex-­mulher, Rosane: eles concordaram em devolver 370 milhões de reais aos cofres públicos.

O império de Messer começou a ruir quando os investigadores puxaram o fio da meada que levou à fortuna acumulada por Cabral. A Operação Câmbio, Desligo revelou que a roubalheira era tamanha que, a certa altura, os doleiros de confiança do ex-­governador, os irmãos Renato e Marcelo Chebar, não conseguiram mais dar conta do serviço de mandar dinheiro para o exterior. A dupla recorreu então aos colegas Vinicius Vieira Claret Barreto, o Juca Bala, e Cláudio Fernando Barboza de Souza, conhecido como Tony ou Peter — operadores de Messer baseados no Uruguai. Em suas delações, Juca e Tony afirmaram que, da taxa cobrada em cada transação, cada um deles ficava com 18%, 4% eram reinvestidos no negócio e o chefão embolsava 60%. De 2009 a 2017, Messer amealhou assim 24 milhões de dólares.

 

Morador, nos bons tempos, de um tríplex na Avenida Delfim Moreira, o endereço mais caro do Rio, onde dava festas frequentadas pela fina flor da sociedade carioca, o doleiro herdou seu negócio do pai, dono de uma casa de câmbio. A atividade ganhou impulso quando os Messer se associaram aos Matalon, família de doleiros que atuava com força no mercado paulista. Em 2003, o doleiro dos doleiros foi citado pelo colega Alberto Youssef — o famoso delator número 1 da Lava-­Jato — em outro processo conduzido pelo juiz Sergio Moro que apurava remessas ilegais de divisas por meio de uma agência do Banestado, o banco estadual do Paraná. Por falta de provas, acabou absolvido. Mas logo depois seu nome estaria envolvido em outro escândalo, o do mensalão, que tratava da compra de votos de deputados pelo PT. Antonio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, mais um ex­poente do ramo, apontou o colega como responsável por operações cambiais que traziam do exterior o dinheiro que abastecia o partido de Lula. Messer, de novo, escapou.

No período em que esteve foragido, um boato dizia que ele estaria na Rússia. Outro garantia que teria passado por uma transformação facial radical. No prédio dos Jardins, Messer evitava circular pelas áreas comuns. Ao ser capturado, ostentava apenas uma barba que não tinha antes e cabelo ruivo. No dia da prisão, policiais encarregados da escuta telefônica de sua namorada, Myra, detectaram, durante uma ligação, uma voz masculina perto dela. Entraram em contato com o juiz federal Marcelo Bretas, responsável pelo braço fluminense da Lava-Jato, e ele autorizou a busca no apartamento. Ao chegarem, os agentes deram de cara com o doleiro de meias, bermuda e camiseta preta. Com ele foram achados 56 000 reais em espécie, joias e uma carteira de identidade falsa. Levado para o Rio, Messer foi trancafiado no presídio de Bangu — o mesmo de Cabral.


Agenda cheia

Alguns famosos que circulavam na órbita do criminoso


 (./AFP)

Ronaldo Fenômeno
Messer era sócio da boate R9, sigla ligada ao ex-jogador, de quem era amigo. Em 2002, os dois chegaram a viajar juntos para a Rússia


 (Vagner Rosário/VEJA)

Sérgio Cabral
O doleiro é apontado como o cabeça do esquema de lavagem de dinheiro montado pelo ex-governador do Rio


 (Reprodução/Instagram)

Arthur Soares
Outro cliente do banco, o empresário conhecido como Rei Arthur era beneficiário e financiador do propinoduto revelado pela Lava-Jato fluminense

 

Com reportagem de Fernanda Thedim e João Batista Jr.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2019, edição nº 2646