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Os traumas e a luta por justiça de uma vítima de abuso de um padre

Edson Felipe Monteiro Gonzalez colocava desenho infantil para molestar coroinha

Lucas Grudzien tem 22 anos de idade. Desde 2009, convive com a dor, angústia e frustração de ter sido vítima de abuso por parte de um padre — amigo de sua família e considerado como um exemplo a ser seguido. Nascido na periferia do Guarujá, litoral de São Paulo, desde pequeno frequentou a igreja com seus pais, uma dona de casa e um militar. Familiarizado com o ambiente sacerdotal e com expectativa de seguir carreira religiosa, aos 12 anos o menino se matriculou em um curso de formação de coroinha. Tudo corria bem na rotina casa-escola-igreja até a chegada de um novo pároco, tido como “mais jovem e moderno”, para tomar conta da Igreja Comunidade São João Batista. O nome dele: Edson Felipe Monteiro Gonzalez, então com 29 anos. Sabendo da devoção e participação da família Grudzien na igreja, o padre Felipe, como é conhecido, foi até a casa deles com uma proposta irrecusável: convidar Lucas para trabalhar na casa paroquial. O garoto cursava o início do ensino médio e agarrou a oportunidade, até para poder ajudar os pais com as contas. A sua atribuição: organizar a documentação da igreja.

Semanas após o início do expediente, realizado no período da tarde, padre Felipe chamou o seu novo funcionário para ver um filme na sala da casa paroquial depois que todos tinham ido embora. Para isso, Lucas teria de faltar à escola — o próprio padre ligou para a mãe do garoto para dizer que ele faltaria ao colégio por estar com excesso de trabalho. Alegou que o coroinha com excesso de trabalho.

O filme escolhido pelo religioso foi Resident Evil, ficção teen ligada ao universo de zumbis, bastante popular entre jovens. “Após alguns minutos do início, o padre pediu para eu ir até o mesmo sofá onde ele estava”, lembra Lucas. Foi quando o primeiro contato físico começou. O sacerdote colocou a mão em cima da barriga, subiu a camiseta e alisou o peito do jovem então com 14 anos. “Eu me levantei assustado e saí correndo”, lembra Lucas, que saiu de lá com lágrimas e suor nas mãos. O garoto até então nunca havia beijado ninguém. Aquele seria o primeiro de muitos ataques.

O coroinha Lucas ao lado de Padre Felipe na ocasião do casamento de Maria Antonieta Brito, então prefeita do Guarujá, em dezembro de 2012: terapia para vencer o trauma

O coroinha Lucas ao lado de Padre Felipe na ocasião do casamento de Maria Antonieta Brito, então prefeita do Guarujá, em dezembro de 2012: terapia para vencer o trauma (Acervo Pessoal/VEJA)

Os pedidos para permanecer após o expediente aumentaram, perdendo aula e sem a presença de outro funcionário da paróquia. Sempre acompanhado do adolescente de 14 anos, padre Felipe gostava de assistir desenhos infantis do Cartoon Network, com predileção por Adventure Time. Após molestá-lo, o religioso dizia: ‘isso tudo fica entre nós, não conte nada aos seus pais’. Os toques evoluíram. “Desde que entrou na igreja, o padre Felipe me perguntava se eu já tinha beijado menina ou menino. Eu era novo, sem nenhuma experiência, e ele me falava para experimentar as duas coisas para poder escolher.”

O primeiro ato sexual foi na sala paroquial, em um anexo da igreja. Após terminar, o padre disse: ‘Lucas, nós só assistimos filme, viu? Deus sabe disso tudo’. A tentativa do padre era normalizar a situação até para o coroinha não contestá-lo. No dia seguinte, o garoto foi conversar com o religioso, a quem se referia pela alcunha de “senhor”, com medo de sua família descobrir. O motivo do temor: sua cueca ficara suja de sangue. O padre pediu para o menino lavar a peça antes de colocá-la no cesto de roupas sujas. O segundo episódio foi ainda mais emblemático: após o ato, o padre Felipe foi celebrar uma missa tendo Lucas como seu coroinha. Predador e presa estavam em cima do altar, juntos, sem que a plateia de fies pudesse imaginar o pesadelo do adolescente.

A medida que os atos se intensificaram, Lucas deixou de ser o menino dócil e feliz. O comportamento mudou. “Meu filho passou a ficar respondão, a tirar notas baixas e a cabular aulas”, diz sua mãe, Claudete Aparecida Grudzien. Sem entender a mudança, os pais resolveram buscar auxílio para lidar com a situação e foram consultar justamente o padre Felipe. “Por desconhecimento, pedi ajuda a quem destruía minha família”, conta Claudete. Com medo que a verdade fosse descoberta, Felipe começou a pressionar Lucas para mantê-lo de boca fechada. “Você não pode confessar com nenhum outro padre, além de mim”, ordenou ao garoto.

Além de organizar a documentação da igreja, Lucas trabalhava na casa paroquial como coroinha, tendo participado de muitas celebrações especiais. Foi ele quem auxiliou o padre na ocasião do casamento de Maria Antonieta Brito, a prefeita do Guarujá, em dezembro de 2012. Fora as advertências do padre para o garoto não contar nada a ninguém sobre os abusos, a vítima e o abusador não falavam sobre o assunto. Quando começou a tomar consciência a respeito da violência que sofria, Lucas resolveu procurar o padre no confessionário. Foi a forma que encontrou para abordar o assunto com ele. Ao contar ao padre Felipe, dentro do confessionário, que estava sendo vítima de um homem (no caso, o próprio padre), o religioso encerrou a confissão.

Padre Felipe e Lucas, em cerimônia religiosa: ataque ocorridos na casa paroquial, quando todos os funcionários já tinham ido embora

Padre Felipe e Lucas, em cerimônia religiosa: ataque ocorridos na casa paroquial, quando todos os funcionários já tinham ido embora (Acervo Pessoal/VEJA)

Quase dois anos de abuso de poder e sexual depois, os pais de Lucas pegaram uma conversa entre o filho e o padre pelo Messenger no computador da casa. O papo de intimidade e coerção (o padre se referia ao menino como “viado” e pedia para deletar toda conversa entre eles) levantou a suspeita dos pais, que pressionaram o garoto para saber o que estava acontecendo. Com a ajuda do padre Felipe, Lucas fugiu de casa e, com 100 reais dados pelo religioso, tomou a balsa para ir até a casa de uma tia, localizada em uma cidade vizinha. Semanas depois, Lucas contou seu martírio aos pais. “O padre me deu carona até a balsa e me disse ao se despedir: ‘se eu fosse você, não voltaria mais para a casa’.

Passada a revolta e crises de choro de toda a família, começou então a fase de buscar Justiça. Lucas e seus pais fizeram um boletim de ocorrência e registraram uma denúncia ao Ministério Público. Sua mãe, Claudete Aparecida, procurou o vigário-geral de Santos para relatar o caso, e escutou do religioso: ‘cuidado ao expor tudo isso, pois seu filho vai ficar conhecido como comida de padre’. Inconformada, Claudete enviou uma carta ao Vaticano. Após algumas semanas, foi chamada para um encontro com o bispo de Santos, Dom Tarcísio Sacaramussa, chefe do padre Felipe. “Logo que tomei conhecimento da denúncia, iniciei imediatamente a investigação prévia, em 2 de outubro de 2016, de acordo com as normas canônicas, e decretei o afastamento cautelar do padre do exercício do ministério sacerdotal. Toda a documentação relativa à investigação prévia foi enviada à Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, no dia 1 de novembro de 2016”, disse o bispo a VEJA.

O que a igreja considera uma punição, pode parecer muito pouco ou nada aos traumas causados ao adolescente. A conclusão do processo administrativo resultou na penalidade canônica de afastamento do exercício público do ministério. Hoje, o padre Felipe trabalha diretamente ao lado do bispo, no departamento de patrimônio imobiliário da Igreja Católica, mas sem celebrar missas. Ele segue recebendo salário e tem contato com o público.

Há fies que acreditam que a proteção ao padre se dá porque ele, adepto de um estilo carismático, conseguiu aumentar o dízimo arrecadado nos tempos em que comandava a Igreja Comunidade São João Batista.

Lucas Grudzien: padre deu carona e dinheiro para ele fugir da casa dos pais

Lucas Grudzien: padre deu carona e dinheiro para ele fugir da casa dos pais (Jonne Roriz/VEJA)

Lucas hoje estuda engenharia civil em uma faculdade de Santos e faz terapia com psicólogos desde os 16 anos. Seus traumas são muitos. Ele fica com a boca seca e mãos trêmulas quando lembra dos abusos do padre Felipe. Suas advogadas Dilene de Jesus Miranda e Andressa Fraga lutam para que o padre Felipe seja condenado por abuso sexual e expulso da Igreja Católica: “para nós, que atuamos na área do direito de famílias, o discurso da doutrina social da igreja, de que a família é a “célula vital da sociedade”, que deve ser protegida e receber tratamento prioritário, não é observado por alguns representantes da própria Igreja Católica, que se omitem diante de fatos graves praticados pelos párocos. Com isso, a instituição passa a ser vista como verdadeira cúmplice e corresponsável pelos danos perpetrados, por corroborar com a perpetuação destes abusos.

Ainda dizem as advogadas: “a família teve a confiança depositada na Igreja Católica quebrada por duas vezes. A primeira quando entregou seu filho ao Ministério do “Padre Felipe”, que se aproveitou dessa confiança para cometer os abusos. A segunda quando buscou amparo junto à Mitra Diocesana de Santos, mas ouviu do Vigário-Geral que se levassem o caso a diante o adolescente ficaria conhecido como “comida de padre”. Somente depois que a família procurou o Vaticano, o procedimento canônico foi instaurado. Mesmo assim, esperou por vários anos por uma resposta que nunca chegou, imperando a impunidade, já que ao invés de ser penalizado, Felipe foi premiado e hoje trabalha ao lado do Bispo Dom Tarcísio.”

Lucas mantém a fé em Deus, agora frequentando a Igreja Anglicana. “Eu busco a Justiça. Está na hora da igreja cumprir o seu papel. Enquanto o Felipe continua como padre e recebendo seus salários, minha família está despedaçada: meus pais estão separados e eu tenho muita dificuldade em manter um relacionamento. Até hoje tenho dificuldade para compreender que isso foi culpa dele, acho que essa é a parte mais difícil para alguém que, como eu, sofre abuso.”