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Governo do DF tenta controlar insubordinação na PM

Insatisfação de policiais militares com salários - os mais altos do país - gerou onda de crimes e motivou reação tardia de Agnelo Queiroz

Por Gabriel Castro 16 abr 2012, 09h21

Um dos sinais mais graves de que há algo errado na gestão pública é a falta de confiança da população em quem deveria defendê-la. Os moradores do Distrito Federal passaram por isso nas últimas semanas. Em meio a uma operação-tartaruga da Polícia Militar (PM) mais bem paga do país, uma onda de criminalidade varreu a capital do país e abalou a imagem da corporação.

As estatísticas mostram que, em março, foram registradas 88 mortes na capital federal. O primeiro fim-de-semana de abril registrou 13 homicídios, um recorde para o ano e um número bem acima da média para o Distrito Federal, que tem polícias bem aparelhadas e recebe um valioso auxílio da União (só em 2012, serão 5,2 bilhões de reais adicionais para a segurança pública, via Fundo Constitucional). Uma jovem de 16 anos foi estuprada ao sair da escola, no meio do dia. As autoridades detectaram uma série de sequestros-relâmpagos. Em meio à onda de violência, um crime em especial acendeu o estopim da indignação popular.

O servidor público Saulo Jansen, de 31 anos, estava em uma lanchonete na Asa Norte quando um rapaz furtou a bolsa e o notebook de um casal. Um funcionário do local e outro consumidor perseguiram o ladrão, que se voltou para trás e apertou o gatilho do revólver que carregava. Saulo foi atingido e morreu minutos depois. Era a noite do dia 6 de abril.

O crime, que em circunstâncias normais já chocaria a sociedade brasiliense, causou uma reação ainda mais áspera. Não era para menos: o assassinato, na região central de Brasília, se deu em meio a uma insubordinação de policiais militares da capital. Impedidos de fazer greve, eles passaram a reduzir as rondas ostensivas e a retardar o atendimento a ocorrências.

Redes sociais – O choque se transformou em revolta quando começaram a surgir, em redes sociais, mensagens anônimas de policiais que comemoravam o crescimento da onda de crimes. A imagem que surge dali não tem qualquer semelhança com a dos policiais abnegados e solícitos, como a sociedade se acostumou a vê-los. “Venho através dessa comunidade agradecer pela ação do bandido, que trouxe à tona nosso movimento”, relata um deles, ao comentar a morte de Saulo.

A operação-tartaruga havia se inciado em fevereiro, como forma de protesto por melhores salários. Em um grupo de e-mail de policiais, um integrante da corporação aconselha os colegas: “Assumam o serviço e, ao deslocar para a a ocorrência, sempre na metade da via! Está no código de trânsito! Não conhecer o QTH (destino) ou se deslocar ao mesmo e não encontrar também pode acontecer. Para chegar no QTH tem várias opções: a mais distante não é crime. É só alegar desconhecimento! Um problema pneumático pode acontecer com pelo menos duas ou três viaturas de cada unidade”.

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Mais recentemente, depois da elevação na criminalidade, outra mensagem de e-mail revela o uso pragmático que alguns policiais militares pretendem obter: “O auge do movimento-tartaruga está sendo agora. O governo está desesperado, não sabe o que fazer para parar tanta criminalidade. A desmotivação está à beira do caos, não tem volta”.

Pleito – Os soldados da Polícia Militar local recebem 4,5 mil reais de salário inicial, mais de quatro vezes do que paga a corporação no Rio de Janeiro. Em meio à bolha salarial do serviço público em Brasília, aquilo que deveria ser visto como um salário adequado passou a ser tido como um vencimento injusto, a ponto de insuflar uma grave crise de disciplina na tropa.

O governo do Distrito Federal foi tardio e ineficiente ao lidar com o movimento. Finalmente, o governador Agnelo Queiroz decidiu trocar o comandante da PM na semana passada. Saiu Sebastião Gouveia, entrou Suamy Santana, que ganhou fama de linha-dura e é impopular entre as tropas porque fez carreira no serviço burocrático.

Uma medida lançada ainda na gestão do antecessor de Agnelo, José Roberto Arruda, está na origem da insatisfação: o governo passou a exigir curso superior para os soldados que ingressam na corporação, além de incentivar os atuais praças a obter um diploma. Com o aumento da escolaridade, cresceu também a pressão por uma equiparação salarial aos agentes da Polícia Civil, que recebem a partir de 8 000 reais.

Vice-presidente da Associação dos Praças da Polícia Militar do Distrito Federal, Manuel Sansão Barbosa diz que a corporação ficará satisfeita, a curto prazo, com um acréscimo no auxílio-moradia, hoje de 30 reais por mês. O governo indica que pode elevar o benefício a 1 500 reais no mês que vem. Mas a categoria exige que, com o tempo, os salários sejam equiparados aos da Polícia Civil.

Diante da reação negativa da população à onda de violência, os policiais militres decidiram em assembleia, na última quarta-feira, dar mais um mês de prazo ao governo. Embora negue a existência de uma operação-tartaruga, Sansão disse que a rotina voltará ao normal: “Vamos redobrar os esforços a partir de agora para livrar a população dessa criminalidade”.

Apesar da garantia do líder da associação, alguns policiais militares prometem manter a indisciplina. Para a população, a sensação de insegurança deve mesmo demorar a passar.

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