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Formatura sem festa: um mês da tragédia de Santa Maria

Fim das férias coincide com o fim do luto oficial de 30 dias na cidade da tragédia. Luta dos voluntários para apoiar os sobreviventes persiste

Por Marcela Donini, de Santa Maria 27 fev 2013, 07h32

A partir da segunda semana após a tragédia, começaram a procurar apoio os profissionais que atuaram no resgate e atendimento às vítimas. Bombeiros que retiraram corpos da boate, soldados que trabalharam nos enterros, policiais civis, taxistas, entre outros. “Muitos se sentem culpados, não entendem por que a tragédia foi tão grande, acham que poderiam ter feito mais para ajudar”, explica o psicanalista do CAPS Volnei Dassoler

Sobram os convites de formatura em Santa Maria. A cidade conhecida por acolher universitários de diversos cantos do Rio Grande do Sul e lotar seus bailes de colação de grau ainda vive o mais triste dos verões, depois de 239 mortes decorrentes do incêndio na boate Kiss no dia 27 de janeiro – a maioria jovens universitários. Desses, 17 eram formandos da produtora Center Color, vizinha da casa noturna cuja fachada percorreu o mundo em fotografias de jornais. O rosto da garota-propaganda vestindo toga e barrete e empunhando um “canudo” na vitrine da produtora confunde-se, agora, com o de tantos outros rostos jovens, nas homenagens em fotos e cartazes colados em frente ao local da tragédia. “Não vamos reabrir. Vamos fechar este ponto, entregar o prédio e procurar um novo endereço na cidade, sem pressa”, diz o consultor de vendas da Center Color Marcelo Munari. Com matriz em Passo Fundo (RS), a produtora estava em Santa Maria havia um ano e meio. Gastou 105 mil reais entre reformas e móveis para o escritório – investimento que ainda não foi pago. Na quinta-feira passada, o estabelecimento estava aberto apenas para receber os formandos do curso de Arquivologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A cerimônia vai ocorrer no dia 8 de março. Sem baile.

TEMA EM FOCO: A tragédia em Santa Maria

O fim dos 30 dias de luto oficial coincidiu com o término das férias de verão. Aos poucos, as pessoas voltam a ocupar as ruas e a cidade retoma sua rotina. Mesmo quem não perdeu ninguém próximo sentiu o impacto da tragédia. A engenheira civil Margaret Jobim evitou sair de casa nas primeiras duas semanas após o acidente. “Na rua, só se falava nisso. Nossa família ficou muito chocada, chegamos a cancelar a viagem que tínhamos programado para as férias”, conta. O baque resultou em imunidade baixa, e Margaret apresenta até hoje feridas de herpes no rosto, que ela atribui ao stress provocado pelo episódio. “Eu, que sempre fui tão orgulhosa da minha cidade, não posso acreditar que algo tão horrível tenha acontecido. Uma sucessão de erros”, lamenta. O marido, Helvio Jobim Filho, ajuda a mulher a lembrar dos motivos pelos quais ainda se deve ter orgulho de Santa Maria. Diretor de engenharia e manutenção do Hospital de Caridade, ele comemora o fato de todos os 107 pacientes internados na instituição terem sobrevivido. Na segunda-feira, os quatro que ainda estavam em observação passavam bem (até sexta-feira passada, o total de internados no Rio Grande do Sul era de 26 pessoas, quatro em estado grave).

Em frente ao Caridade, está mais um motivo que honra os santamarienses. Desde o domingo trágico, voluntários não arredam o pé do local. “E só vamos sair quando o último paciente deixar o hospital”, diz Vanessa Moreira, 27 anos. A engenheira florestal largou o estágio no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e a rotina de estudos para a seleção do mestrado para amparar os pais que acompanham os filhos feridos. O grupo, que já foi maior, conta hoje com 13 voluntários que se revezam sob o toldo improvisado na praça em frente à instituição. Doações como lanches, suco e água não param de chegar. Nos primeiros dias, o desafio era fazer os pais se alimentarem. “A gente enchia de barrinha de cereal as bolsas das mães que se recusavam a comer”, conta Vanessa. Hoje, até sinal de internet já foi disponibilizado gratuitamente no “acampamento”. “Falamos com os pacientes via Facebook. De vez em quando, eles pedem para a gente subir nos quartos e jogar truco ou levar um ‘refri’ bem gelado. Atendemos todos os pedidos”, diverte-se a voluntária.

Um mês depois da tragédia, o local do incêndio, isolado, ainda recebe a visita de curiosos, familiares e amigos de vítimas, como Cristiane Ferreira, 24 anos, que perdeu três amigos no incêndio. A empresária resume o sentimento que ainda ecoa pela cidade: “As flores vão murchar. Os cartazes, o vento vai levar. E o nosso coração, quem vai consertar?”

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Muitos desses corações partidos se encaminham para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Ainda imersos no drama de vítimas e familiares afetados pela tragédia, a equipe de profissionais da saúde da prefeitura comemora o resultado do trabalho que se iniciou de forma improvisada ainda no domingo do incêndio. “Era a ordem no caos. Não sei como conseguimos”, lembra a enfermeira Adriana Krum, coordenadora de Políticas de Saúde Mental do município. O sistema de saúde da cidade teve de aprender, da noite para o dia, a lidar com uma situação de emergência extrema. “De uma hora para outra, conseguimos todos os leitos que precisávamos. Nem foi preciso chamar os profissionais ao trabalho, todo mundo se apresentou”, conta a secretária municipal da saúde, Any Desconzi. “As pessoas tiveram de acreditar no SUS, e o SUS funcionou”.

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