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Falta de manutenção e descaso se acumulam na linha do bonde de Santa Teresa. Só o estado não viu

Representante do Sindicato dos Ferroviários faz, a pedido do site de VEJA, inspeção no sistema de trilhos. Problemas vão da limpeza até a ausência de peças essenciais para a segurança do transporte

Por Leo Pinheiro, do Rio de Janeiro 29 ago 2011, 13h43

“Os trilhos desalinhados fazem com quem o bonde balance mais que o normal. Imagine um descarrilamento em cima dos Arcos da Lapa”, alerta Alexandre Bruno

Dois dias depois do acidente com o bonde de Santa Teresa, o que se vê ao longo da linha do sistema ferroviário do bairro confirma a tese de moradores de que a tragédia está ligada à falta de manutenção do sistema. O número de vítimas – cinco mortos, 57 feridos – leva a crer que dificilmente o descaso com a conservação dos bondes e a superlotação possam estar fora do conjunto de causas do tombamento do bonde número 10. Nos dois casos, o gestor do bondinho falhou ou, no mínimo, omitiu-se. Os bondes são administrados pelo governo do estado, na figura da Secretaria Estadual de Transportes.

Peritos da Polícia Civil encontraram flagrantes de precariedade no bonde acidentado, como um pedaço de arame substituindo um pino de fixação próximo às rodas e ao sistema de freios. A inspeção no local do acidente também apontou para marcas de solda recente. No domingo, quando foi realizada a perícia, a reportagem do site de VEJA percorreu a linha do bonde com o diretor jurídico do Sindicato dos Ferroviários da Central do Brasil. O que se constata é que só o estado não viu ou não atentou para as irregularidades. O Sindicato dos Ferroviários da Central vai acompanhar as investigações sobre as causas do acidente.

Os problemas estão bem ao alcance dos olhos. Logo na entrada dos Arcos da Lapa, não há tela de proteção de um dos lados da passarela. Uma grade quebrada permite a entrada de moradores de rua e até crianças passem sobre a estrutura do aqueduto hoje usado como viaduto pelos bondes. A reportagem do site de VEJA flagrou pedestres e até uma criança cruzando os arcos de bicicleta.

Próximo ao ponto em que morreu o turista francês Charles Damien, que despencou do alto dos Arcos, há um imenso buraco na tela de proteção. “Tenho um metro e 81 centímetros e mais de 100 quilos. Eu passaria facilmente por esse buraco”, diz o técnico.

Ao longo de toda a linha há trilhos desalinhados. Em qualquer sistema ferroviário, esse seria um problema grave. Mas no caso de bondes com laterais abertas, o risco é ainda maior. “Os trilhos desalinhados fazem com quem o bonde balance mais que o normal. Imagine um descarrilamento em cima dos Arcos da Lapa. Caso isso aconteça e a composição tombe para um dos lados, os passageiros serão arremessados do alto do monumento, de uma altura de 17 metros e meio”, alerta Alexandre Bruno.

Ainda sobre os arcos, Bruno encontrou uma junta de dilatação condenada. Não é preciso ser especialista para constatar o problema: o material está visivelmente oxidado e corroído.

A falta de manutenção dos trilhos começa pelo básico: limpeza. Encontra-se todo tipo de objeto ao longo do percurso. O risco, nesse caso, é de um objeto mais rígido – uma pedra, algo de madeira ou uma peça de metal – obstrua as rodas do bondinho e desestabilize o veículo. O excesso de areia e sujeira em uma das chaces de linha dificulta o acoplamento do rolamento do bondinho e propicia derrapagens da composição. A simples limpeza resolveria o problema. Esse serviço, afirma o técnico do sindicato, é prejudicado pela falta de funcionários.

Os dormentes – peças de madeira sobre as quais são fixadas os trilhos – também apresentam problemas. Nos 270 metros do percurso sobre os Arcos da Lapa, há dezenas de dormentes marcados com um “X”, o que, segundo Bruno, indica que precisam ser trocados. Alguns deles já não sustentam mais os trilhos de um dos lados. Outros, já foram tão desgastados que foram arrancados do lugar, sem reposição.

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No caminho entre o Centro e Santa Teresa, a reportagem do site de VEJA flagrou uma cratera, que pode fazer com que as rodas emperrem nesse ponto. Com velocidade, isso pode causar o tombamento dos bondes, ou outra tragédia como a de sábado.

Excesso de peso – No local onde ocorreu o descarrilamento e o tombamento do bonde número 10, que deixou cinco mortos e 57 feridos no último sábado, Alexandre Bruno acompanhou a perícia da Polícia Civil. Ali, podem ser observadas ranhuras nos paralelepípedos. “Isso é a prova incontestável do excesso de peso (superlotação) e a falha do sistema de amortecimento do bonde”, acredita Alexandre Bruno.

Os problemas no ponto onde houve o tombamento continuam: a combinação de solo rebaixado, no piso de paralelepípedos, e trilhos excessivamente altos aumenta o risco de descarrilamento. Em outro ponto, o afundamento do solo é tão grande que os parafusos que prendem os trilhos estão aparentes.

Por toda a malha de Santa Teresa, os cabos da via aérea estão em péssimas condições de manutenção. Os cabos, que deveriam estar totalmente tensionados para evitar contatos elétricos fora de controle, formam uma ‘barriga’. Nota-se também a presença de emendas improvisadas. Essas ‘barrigas’ são a causa principal das constantes desconexões dos pantógrafos (ganchos responsáveis pela comunicação entre as composições e a rede elétrica).

Um pedaço do cabo da via aérea, na altura do Largo dos Guimarães, um dos pontos de maior concentração de moradores, artesãos e turistas no bairro, está quase que totalmente decomposto. Caso venha a se romper, o cabo de energia pode eletrocutar pedestres. Perto dali, um cabo do poste de iluminação mal colocado está no meio do trajeto do bonde. Se o pantógrafo tocar os fios da Light, pode causar um curto circuito de grandes proporções.

Na garagem dos bondes, o carro número 10 agora, é um monumento assustador. Com marcas de sangue nas partes de madeira, o conjunto de ferro retorcido e destroços aguarda novas inspeções. A manopla de acionamento do bonde está envolta em flores. O maquinista Nelson Corrêa da Silva, de 57 anos, que há mais de três décadas trabalhava em Santa Teresa, foi um dos primeiros a morrer no acidente.

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