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Emergentes exigem mais voz e pedem resolução de crises de Europa e EUA

Eduardo Davis.

Brasília, 1 nov (EFE).- As maiores economias emergentes e os países da América Latina chegarão à cúpula do Grupo dos Vinte (G20, que reúne os países ricos e os principais emergentes) com o Brasil como porta-voz, com críticas a forma como a Europa e os Estados Unidos conduzem suas crises e tênues, mas claras, diferenças entre eles.

Brasil, que adquiriu um crescente protagonismo nos fóruns internacionais, chegará a Cannes nos dias 3 e 4 de novembro como a interligação entre a América Latina e a China, Índia, Rússia e África do Sul, com os quais forma o grupo (Brics), que concentra mais da metade do investimento estrangeiro direto mundial, segundo recentes dados da ONU.

Os países latino-americanos, que têm como membros do G20 a Argentina, o Brasil e o México, pactuaram suas posições frente à próxima cúpula em reunião em Montevidéu no dia 18 de outubro, na qual reiteraram que a crise é de ‘responsabilidade’ dos países desenvolvidos.

Na capital uruguaia foi acertado reivindicar um maior peso nas decisões econômicas mundiais e se sugeriu pedir um assento no G20 para a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), para reforçar a presença da região que até agora resiste às turbulências e mantém em alta suas taxas de crescimento.

Em linhas gerais, a posição da América Latina coincide com a da China, Índia, Rússia e África do Sul, que se pronunciaram a favor de uma reforma dos organismos internacionais que garanta maior poder aos emergentes.

‘A concentração do poder nas instituições multilaterais, que atualmente representam principalmente os países desenvolvidos, é obsoleta e mostra uma ordem internacional que já não existe’, declarou a presidente Dilma Rousseff na semana passada em Angola, onde resumiu assim as aspirações comuns do mundo em desenvolvimento.

México, que assumirá em 2012 a Presidência do G20, se soma aos anseios e considera que a cúpula de Cannes deverá concretizar ações para garantir a estabilidade e o crescimento, pois ‘é importante atuar com urgência e de forma coordenada para restaurar a confiança e estabilizar os mercados’.

Segundo o representante especial do México para o G20, Roberto Marino, a agenda de 2012 deverá ser ‘inclusiva’ e dar prioridade ‘aos temas que afetam as economias em desenvolvimento e a região latino-americana em particular’.

Em um âmbito mais amplo e concreto, embora com matizes, América Latina e os emergentes são favoráveis a taxar as transações financeiras internacionais e a adotar medidas concretas para acabar com a especulação nos mercados e a existência de paraísos fiscais.

China, por sua vez, deverá reiterar sua preocupação pela falta de soluções claras às crises de dívida nos EUA e na Europa e o fará a partir da posição de força que confere ao país seu extraordinário crescimento econômico e sua condição de sustentar a atividade econômica mundial.

Índia e África do Sul deixaram claras suas posições em uma recente cúpula do IBAS, bloco formado pelas três nações, no qual os três consideraram o G20 como um ‘fórum fundamental para a cooperação econômica’ e para ‘sustentar o fluxo de capitais em direção aos países em desenvolvimento’.

Além da retórica, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se mostraram inclinados a ajudar a Europa e os EUA por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI), ao qual poderiam contribuir com novos aportes, mas essa saída não convence por enquanto nem Washington nem a Alemanha.

As potências emergentes apoiaram uma proposta defendida pelo Brasil que amplia os ‘testes de estresse’ para os bancos europeus a uma fatia maior do que a anunciada na dívida de credores privados com a Grécia.

Sugere ainda estabelecer barreiras de proteção para a Itália e a Espanha, com o objetivo de levantar muros de contenção que impeçam uma maior expansão da crise. Cobra também ‘decisões políticas rápidas’ para fomentar o emprego, os mercados internos e o comércio global, sem dar espaço às medidas de corte protecionista.

Apesar dessas coincidências e ao chamado unânime contra as barreiras comerciais, nesse ponto surgem as maiores diferenças entre o discurso e a prática, pois quase todos os emergentes adotaram medidas de corte protecionista para brindar seus mercados.

Existem atualmente conflitos comerciais de diversas entidades entre Brasil, Argentina, China e, inclusive, a Índia, que questionam barreiras impostas durante a crise e até ameaçam com ações na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Embora não chegue a esse ponto, a Argentina reivindicou ao Brasil que, como potência regional, aumente suas compras dos países da América do Sul, a fim de proteger a região da recessão que afeta a União Europeia. EFE