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Dilma Rousseff será a estrela do Fórum Social, mas não irá a Davos

A presidente brasileira, Dilma Rousseff, será a estrela na quinta-feira do Fórum Social Mundial, o grande evento dos grupos sociais anticapitalistas em Porto Alegre, e depois viajará a Cuba sem ir ao Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça), que começa nesta quarta-feira.

“É um gesto da presidente que mostra o reconhecimento do Fórum Social Mundial, um movimento que foi muito importante e ajudou, por exemplo, na mudança do quadro de poder progressista na América Latina, incluindo a chegada à presidência de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003”, disse à AFP Oded Grajew, um dos fundadores do Fórum Social.

A presença “de Dilma Rousseff no Fórum Social, e não em Davos, foi uma decisão política da presidente” que expressa uma opção por uma aproximação com os movimentos sociais, explicou à AFP uma fonte da Presidência.

Ex-guerrilheira que enfrentou a ditadura e foi torturada na prisão, Dilma Rousseff, de 64 anos e do esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), chega nesta quarta-feira a Porto Alegre e participará na quinta-feira de um ato público do Fórum Social e em reuniões com os movimentos sociais.

Esta versão mais reduzida do Fórum Social Mundial, que se estende até domingo, é preparatória da cúpula de desenvolvimento sustentável Rio+20 que a ONU realizará em junho no Brasil. Dilma defenderá na Rio+20 o desenvolvimento sustentável com prioridades sociais, como a erradicação da pobreza.

O Fórum Social e o Econômico de Davos acontecem na mesma semana e têm preocupações semelhantes: a grave crise global que afeta, principalmente, as economias da Europa e dos Estados Unidos, onde aumenta o descontentamento social, tema do fórum de Porto Alegre, que reivindica uma mudança radical do modelo capitalista.

Com poucas viagens internacionais, depois de Porto Alegre, Rousseff viajará na terça-feira a Cuba, onde o Brasil intensificou os projetos de investimento econômico, entre os quais o principal é a ampliação do porto de Mariel.

Um dia depois estará no Haiti, país em que o Brasil lidera as tropas da ONU desde 2004 e tem projetos de cooperação contra a pobreza, apesar de recentemente ter adotado a implantação de vistos por causa da crescente migração de haitianos ao país em busca de trabalho.

No Fórum Social era evidente o interesse pela visita da presidente, com uma grande trajetória na esquerda e herdeira política de Lula.

“Se a presidenta entende que o Fórum Social é o termômetro do povo, poderá ecoar suas demandas”, disse à AFP Julio Farabelli, da Frente Continental de Organizações Comunitárias, de Porto Alegre com membros de origem mexicana, cubana, argentina e uruguaia.

A presidente, que se comprometeu a eliminar a miséria em seu país, seguramente também receberá críticas. A socióloga Rosa Fonseca pretende levar um cartaz com a frase “Dilma, não há futuro na sociedade mercantil” e os movimentos ecológicos pedem o veto a uma reforma do código florestal e a paralisação das obras da gigante hidrelétrica de Belo Monte.

“É muito bom que a presidente venha, porque indica que quer canais de diálogo com os movimentos sociais, mas a sociedade civil sabe que os governos só reagem sob pressão”, resumiu o líder dos Sem Terra, João Pedro Stédile.

O ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, representará o governo brasileiro em Davos na ausência de Rousseff nesse fórum.