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A primavera vai chegar

Tenho um sonho: a 'desboçalização' do Brasil

Por Fernando Grostein Andrade 22 fev 2019, 07h00

O Brasil não é um país de metáforas. Depois de duas ondas de lama, o discurso de combate à corrupção do novo governo começou a desbotar. Já apareceram integrantes da cúpula de Brasília envolvidos em esquemas cítricos: desvio de verba parlamentar, desvio de fundo partidário, milícias e, claro, caixa dois — delito esse que foi perdoado pelo ídolo nacional do combate à corrupção porque, segundo ele, houve um arrependimento genuíno, vejam só.

Entre trapos e tropeços e lavagem de roupa suja nas redes sociais, o povo brasileiro foi presenteado com uma pérola dita pelo guardião das esperanças macroeconômicas, Paulo Guedes. Para ele, “a esquerda tem coração bom e miolo mole e a direita tem cabeça dura e coração não tão bom”. Sorte a minha de não acreditar em dividir as pessoas entre esquerda e direita, de modo que não me ofendi. Essa frase, contudo, me deixou com certa esperança de que nosso ministro possa enxergar a turma de coração escuro com quem ele se envolveu como apenas um meio para realizar, à sua maneira, uma revolução nas perversas relações financeiras e de transferência de renda do Estado brasileiro. Tomara.

Aproveitando o vocabulário do ministro arrependido que usou caixa dois e que criou a palavra “despetização”, entro na onda e proponho a “desboçalização” do Brasil, um sonho que cultivo. Chega de boçais. Felizmente, as luzes estão vindo de onde pouco se espera. Kéfera, a rainha do YouTube brasileiro, de uns tempos para cá se arriscou na área política, em defesa de uma pauta progressista, em especial quanto aos direitos das mulheres. O rei Felipe Neto, youtuber de primeiríssima hora, tornou-­se uma grande voz iluminista na internet, ao defender em tempos urgentes o combate ao racismo, direitos LGBTQ e ­outras pautas justas, sem medo de ser feliz. Eu, como gay, agradeço muito esse apoio tão relevante. E mesmo quem já falava de política não está se calando diante do avanço do obscurantismo ­autoritário no Brasil. O jornalista Reinaldo Azevedo, que não pode ser acusado de nutrir simpatia pelo PT, emergiu como uma inteligência afeita a defender a justiça de fato, em detrimento da justiça de ocasião dos justiceiros (além de questionar os reais objetivos da corrida contra a corrupção).

Em tempo: o combate à corrupção é de fato urgente, desde que seja isso mesmo, um combate, e não mera cortina de fumaça. Outro jornalista, Gilberto Dimenstein, surgiu de peito aberto nas trincheiras digitais defendendo a democracia, o meio ambiente e, acima de tudo, o bom-senso. Jornalistas estão ignorando as ameaças de morte e ampliando a nobreza da profissão, tão fundamental para o progresso e para a democracia.

Mas não nos distraiamos: a temporada 2019 do lamaçal que tomou conta do país está só no início. De fato, o provável avanço econômico com as reformas que a esquerda deixou de fazer vai ajudar aqueles que combatem a ciência e o bom-senso. Mas a reação já começou e só vai crescer: as mentiras espalhadas com mamadeiras em forma de pênis estão se desmanchando na chuva ácida da realidade do poder.

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2019, edição nº 2623

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