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Ginger Baker, o músico que surrou bateria e vida com a mesma fúria

O instrumentista inglês morreu neste domingo, aos 80 anos. Ele foi um revolucionário de peles, bumbos e pratos, mas também tinha um gênio difícil

Por Sérgio Martins Atualizado em 7 out 2019, 09h03 - Publicado em 6 out 2019, 09h02

 

Ginger Baker morreu na manhã deste domingo. O baterista de 80 anos estava internado num hospital de Londres e seu caso era grave. A família anunciou a notícia com um post no Facebook: “Estamos muito tristes de dizer que Ginger morreu pacificamente esta manhã. Obrigado a todos pelas amáveis ​​palavras ao longo das últimas semanas.”

Pelo retrospecto, Baker até que durou muito. Músico genial, um dos maiores bateristas de sua e de outras gerações, ele tinha um histórico de problemas com heroína e passou por uma cirurgia de coração aberto dois anos atrás.

“Não tem nem comparação”, declarou certa vez Eric Clapton quando perguntado se John Bonham, do Led Zeppelin, estava à altura de Ginger Baker. O instrumentista de cabelos vermelhos e rebeldes é um marco na história do instrumento. Trouxe muito da técnica do jazz para o rock e foi o pioneiro no uso do bumbo duplo de baterista. Baker integrou o Graham Bond Organization, um combo de blues na Inglaterra dos anos 60, quando foi resgatado – juntamente com seu companheiro de banda, o baixista Jack Bruce – por Eric Clapton para formar o Cream. De 1967 a 1969, o trio lançou quatro álbuns que mudaram a cara do rock. Eles adicionaram peso e psicodelia ao blues e foram uma espécie de precursores do rock pesado. O Cream era famoso pelas improvisações, uma qualidade que depois sucumbiu à briga de egos entre seus integrantes. O disco Goodbye (1969), registro de uma apresentação deles no Royal Albert Hall, é praticamente inaudível de tanto que cada instrumentista tenta superar seu parceiro de banda.

Após a dissolução do Cream, Baker continuou a expandir seu talento na bateria. Ele se uniu a Clapton e ao tecladista e vocalista Steve Winwood no Blind Faith; mudou-se para Lagos, na Nigéria, onde aprofundou seus estudos em ritmos africanos e lançou um disco ao lado de Fela Kuti, pai do afrobeat; montou o Ginger Baker’s Air Force, um combo que unia o rock ao jazz; tocou em Album, do P.I.L., grupo liderado pelo ex-Sex Pistol John Lyndon; formou um super trio de jazz ao lado do baixista Charlie Haden e do guitarrista Bill Frisell e formou um power trio ao lado de Jack Bruce (ex-parceiro de Cream) e do guitarrista Gary Moore.

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O baterista é um sujeito belicoso. Eric Clapton lembra que só o aceitou no Blind Faith porque tinha medo de ser espancado por Baker caso o recusasse no grupo. O Cream, aliás, retomou as atividades por um breve período em 2005. Em sua autobiografia, o guitarrista conta que após poucas apresentações, ele lembrou exatamente porque tinha terminado a banda. Baker foi tema de um documentário, Beware of Mr. Baker, de 2012. No filme, é confrontado com uma pergunta indesejável. Ele simplesmente ataca o cineasta com uma bengala. Durante as entrevistas promocionais, chegou a ironizar da qualidade das perguntas que lhe foram feitas por um repórter. Ginger Baker tratou a vida com a mesma fúria com a qual socava caixas, bumbos e pratos. Com sua iminente morte, o Cream se resume apenas a Eric Clapton – o baixista Jack Bruce se foi em outubro de 2014.

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