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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

As sete vidas de Paulo Guedes

O ministro da Economia ganhou tempo, mas ainda não tem um plano

Por Thomas Traumann - Atualizado em 6 out 2020, 17h09 - Publicado em 6 out 2020, 17h06

O economista Paulo Guedes começou uma nova vida, a sétima desde que tomou posse como ministro da Economia do governo Bolsonaro. Na segunda-feira à noite, Guedes selou um armistício do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em um jantar com a presença dos políticos do Democratas e do MDB e ministros do Tribunal de Contas da União. Eles acordaram que tentarão, depois do primeiro turno das eleições municipais, avançar na votação de alguma reforma na economia, no desenho de um substituto do Bolsa Família e na manutenção da âncora fiscal da Lei do Teto de Gastos. Um spoiler: não vai ser simples.

Guedes encerrou o mês de setembro muito perto de perder o emprego. Com a pandemia de Covid-19, ele tinha uma grande e importante missão: produzir um novo Bolsa Família que rendesse votos para a reeleição de Bolsonaro e não agitasse o mercado. Não conseguiu nem uma coisa, nem outra. Os três desenhos do seu Bolsa Bolsonaro eram inviáveis politicamente, mas a sua inabilidade política fez com que o valor do real despencasse e a Bolsa de Valores de São Paulo se tornasse, em dólar, a de pior desempenho no mundo.

Os generais o consideram um estorvo e os demais ministros já não o respeitam. Os políticos do Centrão, os novos melhores amigos do presidente, especulam nomes para substituir Guedes em voz alta. Por isso, o ministro engoliu o orgulho e foi tentar a paz com Rodrigo Maia.

É sintomático que vários dos convivas do jantar de segunda-feira tenham muito poder, mas pouco acesso ao presidente Jair Bolsonaro: Maia, o ex-presidente do Senado Renan Calheiros, a senadora Katia Abreu, o senador Eduardo Braga e o líder do MDB Baleia Rossi. Nenhum deles é do Centrão. Também estiveram no jantar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, os ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas (dono da casa), José Múcio e Vital do Rego, além do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, que chegou ao lado de Guedes.

Com o jantar, Guedes comprou tempo. Agora tem 50 dias para acertar com Maia e Alcolumbre uma agenda factível de votações de reformas que acalme o mercado. Maia insiste na votação da reforma tributária e na administrativa, mas Guedes quer incluir uma nova CPMF na primeira e tornar a segunda inodora ao não mudar regras para os atuais servidores. Alcolumbre, por sua vez, tem como única preocupação conseguir se reeleger, mas para isso precisa que mais de 60 dos 81 senadores não gritem que a reeleição é ilegal. Na prática, Alcolumbre não pode desagradar ninguém até fevereiro, quanto mais votar temas polêmicos como a mudança na divisão de impostos entre Estados e Municípios, impostos sobre a classe média e retirada de vantagens de servidores públicos.

No mesmo prazo, Guedes precisa entregar ao presidente um Bolsa Bolsonaro que pare em pé e não indique ao mercado que as contas públicas vão para o buraco. A verdade é, não tem como. Se fosse simples, ele já teria feito. Ou o presidente aceita uma Bolsa Bolsonaro magrinha ou irá explodir o teto de gastos; ou o mercado aceita um teto de gastos com exceção ou foge do Brasil como fez em 2015 e 16. E aí, nem todos os jantares darão uma nova vida a Paulo Guedes.

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