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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Glamour, glamor, glamur: sábios para lá, povo para cá

Por Sérgio Rodrigues - Atualizado em 12 fev 2017, 13h29 - Publicado em 2 jul 2014, 12h04

Audrey Hepburn em ‘Bonequinha de luxo’ (1961): está bom de glamour ou quer mais?

“Prezado, no Brasil todos pronunciam a palavra glamour como ‘glamur’, mas professores de português me dizem que o certo é ‘glamor’, porquer a origem é inglesa, não francesa. Os dicionários portugueses também insistem na pronunciação ‘glamor’ e ‘glamOUroso’. Sei que é uma batalha perdida, mas eu insisto em falar ‘certo’. Estou ‘certo’? Muito agradeceria ajuda.” (Antonio Carlos de Andrada)

A consulta de Antonio Carlos nos lança num pequeno vespeiro, que nem por ser minúsculo, restrito a uma única palavra, deixa de azucrinar os falantes. Vou tentar resumir o problema.

A palavra glamour, sinônimo de “charme, encanto pessoal, magnetismo”, é registrada por todos os nossos principais dicionários, mas, ao contrário de xampu, abajur e tantos outros termos importados, não conseguiu se naturalizar: o serviço de imigração da lexicografia insiste que, embora circule livremente por aí, ela ainda carrega documentos estrangeiros e deve ser grafada em itálico. Ninguém obedece, claro, e fica por isso mesmo.

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Essa recusa dos dicionaristas é um tanto anômala se considerarmos que glamour veio para ficar e até constituiu família: seus filhos nativos como glamouroso, glamourizar e glamourização são dispensados pelos sábios do uso de itálico, embora não estejam livres de uma incômoda variedade de grafias. O Aurélio registra “glamOUroso”. O Houaiss, “glamOroso”.

A confusão não para aí. Como observa corretamente Antonio Carlos, é agravada pelo fato de que, a cada mil brasileiros, 999 pronunciam glamUr e não glamOr. Os dicionaristas não gostam da opção prosódica da maioria da população por uma razão etimológica: glamUr é fruto de uma interpretação equivocada do vocábulo como francês, o que explicaria a pronúncia semelhante à de jour, quando na verdade ele veio do inglês (leia mais aqui sobre a curiosa origem de glamour, que tem raízes escocesas e um inusitado parentesco com o vocábulo “gramática”).

Ora, se nasceu no inglês – argumentam os sábios – seria um atestado de ignorância sancionar uma pronúncia afrancesada, mesmo que ela seja hegemônica. As variações de grafia (glamouroso, glamoroso) ainda se admitem porque existem até na língua-mãe: no inglês americano é comum encontrar a forma glamor.

A argumentação faz sentido etimológico, mas deixa de levar em conta que, ao migrarem, palavras passam a dever obediência aos falantes do idioma que as recebe, não do de origem. Do contrário, o vocábulo inglês yacht teria sido adotado como “iÓte” e não como “iate”. É natural que, no processo de aportuguesamento, prevaleça a pronúncia local.

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Seria mesmo uma batalha perdida, como diz o leitor? Não creio. Acho que estamos a caminho de dar a glamour “foros de cidade”, como dizia Machado de Assis. Um sinal nesse sentido pode ser encontrado no “Dicionário de Usos do Português do Brasil”, de Francisco S. Borba, que também registra apenas glamour, com itálico e tudo, mas traz as grafias glamurizado, glamurizante, glamurizar e glamuroso.

Trata-se de uma obra de referência séria e importante, mas, digamos, alternativa. Como o nome indica, tem menos compromisso com a tradição e mais com o uso contemporâneo do idioma. Os exemplos que cita para justificar suas escolhas são colhidos, em grande parte, na grande imprensa.

Se não tem o peso institucional de Aurélio e Houaiss, o dicionário de Borba ganha deles em agilidade e leveza, permitindo-lhe seguir alguns passos à frente no caminho acidentado da evolução constante da língua. Não duvido que dentro de alguns anos glamour acabe aportuguesado como “glamur”. Eu sou um que vou achar glamuroso à beça.

Publicado em 28/3/2013.

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