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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

O elogio da amoralidade

O artigo em que recorro a um texto de Trotsky para tratar da moral profunda das esquerdas é um pouco longo. Sei que o tempo é escasso. Este é mais curto. Prestem atenção ao que escreveu o revolucionário russo: “Mas a mentira e a violência por acaso não são coisas condenáveis ’em si mesmas’ ? […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 10h27 - Publicado em 18 out 2011, 17h16

O artigo em que recorro a um texto de Trotsky para tratar da moral profunda das esquerdas é um pouco longo. Sei que o tempo é escasso. Este é mais curto. Prestem atenção ao que escreveu o revolucionário russo:

“Mas a mentira e a violência por acaso não são coisas condenáveis ’em si mesmas’ ? Por certo, como é condenável a sociedade dividida em classes que as engendra. A sociedade sem antagonismos sociais será, evidentemente, sem mentira e sem violência. Mas não é possível lançar uma ponte para ela senão com métodos violentos. A própria revolução é o produto da sociedade dividida em classes, da qual ela leva necessariamente a marca. Do ponto de vista das ‘verdades eternas’, a revolução é, naturalmente, ‘imoral’. Mas isso significa apenas que a moral idealista é contra-revolucionária, isto é, encontra-se a serviço dos exploradores.”

Está tudo aí. Esse é o norte moral das esquerdas, não importa a tendência. De fato, ele está dizendo que, enquanto a sociedade for dividida em classes, todos os meios de “luta” são válidos. E quem os recusar está apenas exercitando a “moral idealista” e “contra-revolucionária”.

PT e PC do B não são, hoje em dia, “revolucionários”. Mas se consideram herdeiros da “luta do proletariado”. Na verdade, herdaram do bolchevismo o amoralismo e a convicção de que tudo lhes é permitido e de que certas interdições são apenas instrumentos da opressão manipulados por seus inimigos.

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Assim, ninguém deve se espantar quando esses “esquerdistas” dizem uma coisa na oposição e fazem outra no governo. É que eles estavam usando “a mentira” a favor da causa. Qual é o limite de um esquerdista? Não existe! Ele só precisa se convencer, ou fingir que se convenceu, de que a sua ação contribui para fazer a luta avançar. Esqueçam aquela patacoada superada de “socialização dos meios de produção”.  Como “donos” dos destinos do povo, os esquerdistas podem fazer alianças com os grupos mais reacionários em nome da “libertação do povo”. Aliás, hoje em dia, alguns potentados do capital estão recebendo privilégios em nome até do… socialismo.

Trotsky, como vocês sabem, foi assassinado a mando de Stálin. O bigodudo homicida não teria nenhuma dúvida em justificar seu ato usando o texto escrito pela própria vítima. Quem considera que a moral é sempre um valor relativo está pondo uma corda no próprio pescoço. Uma hora alguém se lembra de abrir o alçapão.

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