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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Caetano, o caudaloso do “cogitus interruptus”, tem de se explicar. Quero saber como é uma “conversa boa que explica o sentido de certos atos violentos”

Caetano Veloso, o “new kid (de 71, mas achando que tem 17) on the black bloc”, tentou se explicar em artigo publicado no Globo, recorrendo àquele seu estilo em que a prosa aparentemente caudalosa vai justapondo primores do “cogito interruptus”. Não diz com clareza o que pensa ou o que pretende, e isso lhe confere certo […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 05h26 - Publicado em 9 set 2013, 08h07

Caetano Veloso, o “new kid (de 71, mas achando que tem 17) on the black bloc”, tentou se explicar em artigo publicado no Globo, recorrendo àquele seu estilo em que a prosa aparentemente caudalosa vai justapondo primores do “cogito interruptus”. Não diz com clareza o que pensa ou o que pretende, e isso lhe confere certo ar de profundidade, levando o leitor a desconfiar de si mesmo: “Talvez eu não tenha entendido…”. Não havia o que entender. Os adeptos desse estilo não se obrigam a ter uma tese, apenas uma coleção de opiniões ligeiras.

Numa cidade, como o Rio, que arca com alguns milhões de prejuízo por conta da ação de truculentos e arruaceiros, de fascistoides sem causa — e, deixo claro, se tivessem uma, seria ainda pior, dada a sua prática —, é de uma estúpida irresponsabilidade que uma figura pública, ainda que vivendo um triste ocaso, envelhecendo mal, como os vinhos que avinagram, tenha feito aquela foto e dado aquelas declarações, que, obviamente, endossam os atos violentos, ainda que ele diga querer paz. Como afirmei no post deste domingo, ninguém se juntava a Ernst Röhm, na Alemanha pré-nazista, porque quisesse paz. Os black blocs não são as tropas de assalto da SA nazista, mas também eles entendem que a violência é redentora e transformadora.

Em seu artigo, Caetano, que ainda não está certo se é ou não anticapitalista — Santo Deus!!! —, afirma ser apenas um “velho baiano”. Não é, não! Nem o “ser velho” nem o “ser baiano” definem as suas escolhas. Já o “ser estúpido”, aí sim, parece compatível com as tolices que andou dizendo e fazendo nesse caso. Mas ele não é tão tolo que não consiga fazer uma pergunta óbvia, com resposta idem: “Quem ganha e quem perde com a ação dos black blocs?”. Afirmar que a proibição de máscaras — que, a rigor, nunca chegou a existir (ele sabe ler?) — é uma “violência simbólica” empresta certo ar de requinte e alcance teórico a um, com a devida vênia, ataque de frescura. No Brasil, mulheres podem andar até de vestido e homens até de calças, Caetano Veloso! Não há lei que possa proibi-los — e não foi desta vez. O que se fez foi obrigar, em certas circunstâncias, os mascarados a se identificar porque usavam o anonimato para destruir a cidade. E, nesse caso, se trata apenas de dar consequência a um artigo da Constituição Federal.

Mas devo me referir à “Constituição Federal” quando critico um artista, um poeta, um pensador, um guru, um esteta, um filósofo da “raça” brasileira, um pensador tropicaliente e sei lá quantas outras fantasias ele possa alimentar sobre si mesmo e os outros sobre ele? Acho que sim, não é?, uma vez que foi como figura pública que fez uma escolha política que ele falou. Leio o seu texto e percebo a tentativa, que me soa intelectualmente vigarista, de, uma vez mais, demonizar a polícia e livrar a cara — escondida — dos arruaceiros. Investindo em teorias conspiratórias ridículas, afirma que a polícia bate em cidadãos comuns e deixa os baderneiros agir à solta. O fato de ter havido, e houve, excessos policiais em alguns casos não o autoriza a transformar a polícia na vilã dos acontecimentos. Porque se trata, obviamente, de uma mentira.

Não que ele não tenha tido a chance de, mais uma vez, condenar explicitamente a violência. Teve e não o fez. Afirmar que quer paz é só exposição de um desejo; mera expressão de um valor subjetivo. Ocorre que as políticas públicas, meu “velho baiano”, não existem para alimentar expectativas pessoais ou meros quereres. Quando o artista diz que que os “black blocs fazem parte”, ele tem de dizer parte de quê. Fica faltando um complemento essencial à sua frase. Nesse caso, o charme do “cogito interruptus” esconde, certamente, uma não resposta, um buraco, um conjunto vazio. Desenvolva, Caetano Veloso: os black blocs fazem parte exatamente de quê?

Da política? Da vida pública? Do debate? Das alternativas de poder? Do que é, afinal, meu senhor, que os “black blocs” fazem parte?

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Lendo o seu texto, constatei que seus amigos do Fora do Eixo, do Mídia Ninja, como eu suspeitava e escrevi aqui — para protesto até de alguns amigos —, andam mesmo de mãos dadas com os black blocs. Está revelado ali no texto. Eu já tinha tido essa certeza quando Bruno Torturra e Pablo Capilé concederam aquela entrevista ao Roda Viva. Também à dupla se deu ali a chance de condenar a violência dos mascarados, o que não fizeram. Ao contrário: Torturra, com um domínio certamente precário das palavras, não só se negou a repudiar a quebradeira como evocou violências outras que a justificariam e ainda aproveitou para chamar a brutalidade da turma de uma “estética”. Estética? Sou capaz de apostar que esse moço andou lendo a orelha de alguns livros de autores da Escola de Frankfurt e saiu por aí a disparar tolices mal assimiladas. Deveria fazer como Capilé, que parece se orgulhar de não ler livros, recomendando que outros também não o façam.

O que queria o autointitulado “velho baiano”? Um Brasil melhor, mais solidário, mais justo, com menos larápios, com menos safadeza, com menor corrupção? E como é que se vai conquistar isso? Com o povo sendo expulso, como foi, das manifestações por essas gangues trogloditas? Reparem neste trecho do artigo de Caetano, em que aparece um certo “Carioca”, membro do Fora do Eixo (em vermelho):

“Carioca nos encontrou na faixa de travessia de pedestre. Muito doce, ele foi conversando até entrarmos no apê. Tudo muito limpo e alegre. Contava que um membro do Black Bloc tinha ido à reunião da véspera e que os aconselhara a não sair no dia 7. Eles, blocs, iam, mas os outros não deviam ir. Perguntei se isso seria uma ameaça. Não parecia, ele disse. Contava mais para mostrar como os discursos dos manifestantes têm sido variados. Repetia sempre a palavra querida dos Fora do Eixo: “narrativa”. Mas a conversa dele era boa. Ele explicava o sentido de certos atos violentos, mas entendia os argumentos de Sidney.”

Retomo
Eis aí a proximidade com os arruaceiros. Mas o que chama a minha atenção é outra coisa. O tal Carioca “explicava o sentido de certos atos violentos”, e o “velho baiano” achou que a “conversa era boa”??? Então ficamos assim: começa a haver no Brasil gente que sabe “explicar” o sentido da violência. Posso imaginar os caminhos dessa explicação.

A propósito: se Caetano concluir, finalmente, que é anticapitalista, sugiro que se interne numa das casas Fora do Eixo e passe a dar shows gratuitos, não sem antes entregar sua fortuna às criancinhas pobres. Afinal, direito à propriedade e à herança são dois pilares desse regime maligno, que precisa ser superado — e contra o qual se batem os black blocs. Os dois filhos mais jovens de Caetano se tornaram evangélicos, convertidos pela babá.

Talvez ainda consigam salvar o pai…

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