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Paulo Cezar Caju Por Paulo Cezar Caju O papo reto do craque que joga contra o lugar-comum

A “boa” mentira que fez Pelé treinar como nunca

A prática de inventar problemas médicos para evitar convocações é muito cruel, mas no caso da suposta miopia do Rei foi um truque motivacional de Saldanha

Por Paulo Cezar Caju - Atualizado em 22 Maio 2020, 14h54 - Publicado em 22 Maio 2020, 14h47

Para os que acham as fake news um fenômeno atual, posso garantir que na Copa do Mundo de 1970 elas já causavam estragos consideráveis. Esse foi um tema levantado por um amigo, Israel Cayo Campos, professor de ciências humanas e naturais, profundo conhecedor de futebol, e prometi comentá-lo aqui. Por coincidência, outro dia assisti a uma entrevista do lateral-esquerdo Rildo na qual ele lamentava seu corte. E tinha de lamentar mesmo, afinal ele havia jogado as eliminatórias e tudo indicava sua ida ao México, mas surgiu um inesperado sopro no coração. Verdade? Mentira. Tanto Saldanha quanto Zagallo conheciam Rildo dos tempos do Botafogo. O problema é que nenhum jogador pôs a boca no trombone na época, não sei se por respeito ao treinador ou intimidados com o poder dos militares.

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Se forem conversar com Sebastião Leônidas, um dos maiores zagueiros que vi jogar, ele também contará uma história parecida com a de Rildo. Saldanha nem sequer o chamou para as eliminatórias, e ele havia ganhado tudo, estava em uma fase espetacular. Tempos depois soube que um sopro no coração também tinha sido o motivo para sua ausência nas convocações. Outro grande zagueiro que ficou de fora foi Djalma Dias, titular indiscutível durante os jogos classificatórios, em 1969. É óbvio que havia uma política nos bastidores, com as federações de outros estados forçando a barra por seus jogadores. E essa queda de braço foi a responsável pela convocação do gaúcho Everaldo, do Grêmio. É claro que ele era bom de bola, mas Rildo e Marco Antônio jogavam mais. No caso de Leônidas, também foi mais ou menos assim. Nas eliminatórias, foi o Scala.

Inventaram um sopro no coração de Rildo. Nenhum jogador pôs a boca no trombone na época, não sei se por respeito ao treinador ou intimidados pelo poder dos militares

Paulo Cezar Caju

Essa prática de inventar problemas médicos é muito cruel. Rildo e Sebastião Leônidas continuaram jogando normalmente por seus clubes. Se fosse comigo, eu teria armado um barraco tremendo — e vocês me conhecem e sabem que eu armaria. O ponta Arílson que o diga! Em uma dessas convocações politiqueiras chamaram o Arílson, que, diga-se de passagem, estava jogando muita bola. Mas queriam alguém do Flamengo, e ele mesmo contou em uma entrevista que em um jogo-treino, no Maracanã, aberto ao público, Zagallo avisou que ele entraria no segundo tempo. Eu estava de titular. Aí, o Velho Lobo, no intervalo, me chamou e veio com uma conversa-mole: “Olha, estou pensando em fazer um teste com o Arílson…”. E eu de bate-pronto respondi que, não sendo no meu lugar, achava uma ótima ideia, kkkkk. O fato é que o Arílson não entrou.

Se você colocar o galho dentro, eles se aproveitarão disso. O Sebastião Leônidas é extremamente tímido, e isso acaba atrapalhando. Com o Toninho Guerreiro foi a mesma coisa, inventaram uma contusão crônica em seu tornozelo. Mentira! Jogou anos depois e nunca sentiu nada. Tudo bem que Tostão ganhou a vaga, e não teria chance, mas a mentira fere. Talvez a única mentira “saudável” tenha sido a miopia lançada por João Saldanha que tomou conta dos noticiários. Saldanha sentia que Pelé andava muito acomodado, e ele havia feito uma Copa horrível em 66. Queria motivar o “crioulo”, como chamava Pelé. Chegou a colocá-lo no banco para Dirceu Lopes, em São Paulo. Olha, nunca vi Pelé treinar tanto na vida. Como alguém poderia chamá-lo de cego? — devia pensar. E danou a fazer gols! Não era fake news, mas motivação. Saldanha cutucou a onça com vara curta, e o resto da história vocês já conhecem.

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