Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Goiânia, 2017: precisamos falar sobre bullying

Nenhuma autoridade escolar pode resolver o problema com a simples emissão de advertências disciplinares

No desfecho de O Ateneu, o clássico de Raul Pompéia, um estudante chamado Américo toca fogo no colégio que dá título ao romance. As chamas se espalham com rapidez, tudo vem abaixo, sobram apenas os escombros e as cinzas do educandário. Qual o motivo da rebeldia? Sérgio, o narrador da história, não chega a uma conclusão muito segura, já que a atitude é incompreensível para quem não partilha dos devaneios e da loucura de Américo.

No entanto, há um clima de catarse no andamento da cena. É como se o incêndio pudesse purificar a maldade que imperava entre os muros do internato. “Vais encontrar o mundo”, disse o pai de Sérgio no primeiro dia de aula. “Coragem para a luta”. Daí pra frente, com efeito, o personagem se vê numa selva cuja razão de ser dos estudantes “mais adaptados” é humilhar os novatos com o uso do deboche e da agressão.

Por que Sérgio não denunciava o bullying para os professores? Simplesmente porque isso não está previsto nas regras implícitas que norteiam a conduta de qualquer agrupamento estudantil, seja em 1888 ou em 2017. Sérgio estava sozinho, assim como Américo e os demais. Precisava se adaptar às severas leis de um pátio escolar. Conforme a intuição do seu pai, toda escola é a transfiguração do mundo, não pelos currículos que oferece, mas por se mostrar um palco propício à violência.

“Tornei-me um bicho ruim”, confessa Sérgio em certa altura, e não se trata de simples retórica. Criado à imagem e semelhança dos carrascos que o maltratavam, cedo ou tarde encontraria uma forma de se vingar. É a “lei”: ou você se adapta ao sistema, ou perece sob as botas da tirania. Mas a desforra de Sérgio se deu apenas em pensamento. Américo, por sua vez, encontrou uma caixa de fósforos. O que aconteceria se tivesse encontrado uma pistola?

A resposta está na tragédia de Goiânia, ainda que os pais de alguns alunos descartem o bullying como explicação.

A prática constante da violência psicológica parece ser capaz de colocar os adolescentes num estado mental de irrealidade. Agressores e agredidos passam a viver num universo em que as regras sociais e os parâmetros do bom senso não fazem mais sentido. Instalado esse cenário, basta um passo — ou um disparo acidental — para que uma vingança sanguinária se concretize.

Com um compreensível olhar de perplexidade, a coordenadora que conseguiu conter o atirador disse em entrevista que nunca foi procurada por nenhum dos envolvidos para resolver problemas de bullying. É um silêncio que Sérgio conhecia bem. As vítimas costumam internalizar a ideia de que qualquer tentativa de denúncia seria um desastre. Calam-se e sonham com o próprio sumiço, ou com a morte, ou ainda com uma desforra desproporcional.

A solução de Américo é tentadora para quem vive o drama da humilhação cotidiana.

O bullying, por isso, não é um problema que se possa resolver com a emissão de advertências na secretaria do colégio. Ele também acontece por olhares e meias palavras. Só uma mudança de comportamento que atinja uma sociedade inteira poderia surtir os efeitos desejados. É possível? Se aprendemos a deplorar a violência que ocorre no outro lado do mundo, deveria ser fácil não praticá-la nos pátios das nossas escolas.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Fernando Silva da Cruz

    “Bullying” é só uma palavra bonitinha para camuflar humilhação. O que aconteceu foi realmente um tragédia, do ponto de vista de não se esperar tamanha virulência de um garoto de 14 anos. No entanto, todos sabem quão violentos podem ser se submetidos a situações de humilhações continuadas.

    Curtir

  2. … e lá se vão quatro décadas desde minha infantil adolescência… tenho a impressão de que a zoeira era maior naquela época, mas ninguém morria… o que mudou de lá pra cá? excessos no patrulhamento? Excessos no debate do bulling? Quantas mortes ainda virão?

    Curtir