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Talibã no poder já não choca mais? Ainda há muita encrenca pela frente

Governo Biden quer mudar de assunto o mais rapidamente possível, mas a espantosa ascensão dos ultrafundamentalistas não irá embora tão depressa

Por Vilma Gryzinski 13 set 2021, 07h42

O ser humano se adapta a tudo e as cenas que chegam de Cabul, onde os talibãs estão se acomodando à volta ao poder, já não provocam tanto espanto.

Entre as mais recentes, estão as dos combatentes alojados na mansão que foi de um dos “senhores da guerra” do país, Abdul Rashid Dostum, uma das figuras mais bizarras do Afeganistão – um ex-comandante comunista que virou aliado dos americanos e foi até vice-presidente, tendo se especializado em matar talibãs de maneiras especialmente cruéis, como esmagá-los vivos por esteiras de tanque ou sufocá-los em containers fechados sob o sol do deserto.

Cerca de 150 talibãs agora estão alojados na mansão que ostenta uma gigantesca estufa, incontáveis lustres de cristal, piscina coberta e muitas dezenas de metros de sofás encostados em paredes recobertas de aquários – o divã, onde em países orientais os chefes recebem a clientela. 

Confortavelmente descalços, os militantes aparecem num vídeo filmado para mostrar o luxo absurdo da mansão. Por alguns instantes, os talibãs parecem justiceiros bem intencionados vingando os abusos de líderes grotescamente corruptos.

Em nenhum momento vandalizam a mansão, revelando o autocontrole que é uma marca do Talibã 2.0, a nova versão do movimento ultrafundamentalista que não quer repetir as insanidades cometidas da primeira vez que chegaram ao poder, em 1996.

Ninguém pode se vangloriar de mandar no Talibã, mas a atual busca de  comparativa respeitabilidade certamente tem a marca da mão conselheira do Catar, o emirado do Golfo Pérsico que tem grande influência entra radicais de diversas correntes.

Fora uma ou outra decapitação no interior, atribuída a excessos de combatentes que nem sempre podem ser inteiramente controlados, o Talibã 2.0 está respeitando a promessa de anistia a todos os integrantes, civis e militares, do governo deposto.

Numa magnânima concessão, admitiu que mulheres poderão fazer faculdade desde que em salas de aula inteiramente separadas dos homens. Para os padrões do Talibã, que na sua primeira encarnação só admitia que meninas estudassem até os dez anos de idade, é um progresso e tanto.

Outro dos exemplos mais significativos: a embaixada americana, a maior do mundo, abandonada às pressas na tumultuada retirada, ainda não foi ocupada – outra concessão certamente negociada para não acrescentar, logo de início, outra humilhação na conta dos Estados Unidos.

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É claro que a bandeira branca e preta do Talibã em algum momento será hasteada na ex-embaixada, como o foi no palácio presidencial justamente nos vinte anos do Onze de Setembro.

Para o governo de Joe Biden, a expectativa é que novos assuntos – a vacinação obrigatória para quem trabalha em empresas com mais de cem empregados, a inflação e outras notícias mais recentes – eliminem gradativamente as imagens que chegam do Afeganistão e lembram aos americanos o vexame final.

Problema: pode demorar, mas a vitória dos jihadistas transformará o Afeganistão, de novo, num polo de atração para seus similares de outros países.

Um dos alertas mais explícitos foi dado por Michael Morell, duas vezes diretor interino da CIA. Ele estava com George Bush filho no Air Force One no Onze de Setembro e foi o primeiro a creditar os atentados a Osama Bin Laden.

“A vitória do Talibã e a maneira como nossa saída aconteceu com toda certeza encorajaram jihadistas do mundo inteiro”, disse ele.

“O Talibã está dizendo que não apenas derrotou os Estados Unidos, mas derrotou a OTAN. ‘Nós derrotamos a maior potência militar do mundo em todos os tempos’. Isso está sendo muito comemorado”.

“Os jihadistas não apenas foram encorajados, mas muitos irão para o Afeganistão fazer parte da central do jihadismo”.

“Vamos ver um fluxo fazendo o caminho volta e é isso uma das coisas que faz o Afeganistão ser um dos lugares mais perigosos do planeta”.

Por mais que Biden queira, o Afeganistão não vai sumir do mapa.

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