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Quando está na hora de cair fora? Exemplos nos Estados Unidos

Casos vão da juíza que morreu no cargo aos 87 anos a, potencialmente, Joe Biden, o candidato que, se ganhar, será o presidente mais velho do país

Por Vilma Gryzinski - 24 set 2020, 07h21

Ruth Bader Ginsburg se apegou ao lugar na Suprema Corte, esperando viver mais, além do mandato presidencial de Donald Trump. Está sendo velada com honras, merecidas, e elogios criativos, como o do presidente da Corte, John Roberts, dizendo que ela “sonhava ser uma cantora de ópera, mas terminou sendo uma estrela de rock” – uma referência ao status que atingiu como figura da cultura popular.

Mas nas fileiras mais à esquerda, a juíza é acusada de ter cometido um erro estratégico: deveria ter renunciado quando Barack Obama ainda era presidente, abrindo vaga para um substituto, ou mais provavelmente substituta, alinhada com suas ideias progressistas.

A reclamação não é muito simpática com a juíza, mas tem uma dose de verdade. 

Esperar ultrapassar os 87 anos, com um histórico de doenças devastadoras, talvez não tenha honrado também seu cargo na Suprema Corte. Mesmo com todos os assistentes para fazer o trabalho duro, ela poderia cumprir honestamente suas funções, cheias de desafios jurídicos, intelectuais e morais?

Agora, a mesma pergunta está sendo levantada sobre a senadora que vai chefiar a oposição democrata à candidata que será indicada por Trump no sábado.

Dianne Feinstein tem os mesmos 87 anos da juíza e, segundo o site Politico, “às vezes fica confusa com perguntas de repórteres ou dá respostas diferentes à mesma questão”. Senadores e assessores democratas manifestaram “preocupação generalizada sobre sua capacidade de liderar o esforço agressivo” contra a indicada.

Em linguagem menos indireta, a veterana senadora está muito velha para seu cargo na Comissão de Justiça ou mesmo para continuar no Senado.

Plantar essas dúvidas na imprensa é uma maneira de colocar o guiso no gato que Dianne Feinstein não demonstra ter a menor disposição a ouvir.

Nem ela nem Nancy Pelosi, a presidente da Câmara, praticamente uma menina, aos 80 anos, apesar de vários lapsos capturados nas câmeras. Sem contar o flagra em que foi pega, cortando e arrumando o cabelo sem máscara num salão de São Francisco. 

Em vez de se desculpar pela derrapada e assumir o erro, nada grave, Pelosi disse que a dona do salão é quem deveria pedir desculpas a ela, por divulgar as imagens da câmera de segurança. Só faltou dizer que era uma idosa e precisava ser respeitada.

A questão da idade e da hora certa para a aposentadoria de figuras públicas é especialmente relevante nessa campanha presidencial.

Donald Trump está construindo seus ataques a Joe Biden sobre dois pilares.

Primeiro, o ex-vice-presidente moderado caiu em poder das alas esquerdistas que apoiam a baderna nas ruas e promovem mudanças radicais no sistema americano.

Segundo, Biden está já entrando no tempo em que as coisas começam a se apagar. Um dos filmes de propaganda – as campanhas pela televisão têm uma agressividade quase inimaginável em comparação com as do Brasil, entre outros -, começa com a pergunta: “O que está acontecendo com Joe Biden?”. O candidato democrata tem 77 anos. 

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Alternam-se então imagens, dele como vice-presidente, um homem ainda vigoroso e eloquente, com cenas recentes nas quais esquece o que está falando, troca palavras e fica com a expressão de alheamento típica de quem já está no caminho da perda de capacidade cognitiva.

Vários políticos e assessores  de campanha republicanos são contra a tática de Trump de desmerecer o adversário, especialmente à luz dos próximos debates, o primeiro no dia 30.

Argumentam que, para Biden, entrar na arena com baixas expectativas é um trunfo. Se chegar ao fim do embate num único pedaço, já será celebrado como vencedor pela grande maioria da imprensa, tão comprometida com o candidato democrata que, nas poucas entrevistas, faz perguntas combinadas e até dá uma ajudazinha quando ele empaca.

Outro motivo alegado: Biden tem 40 anos de senado e oito de vice-presidência, com experiência infinitamente maior do que Trump em debates políticos; é bom não cantar vitória antes do jogo.

Trump, obviamente, não seria Trump se desse ouvidos a esse tipo de argumentação e, embora não seja nenhum rapazote, com 74 anos, continua a pintar Biden como um político gagá que seria facilmente manipulado, como um fantoche, por seu grupo mais próximo, incluindo a energética Kamala Harris.

A hora certa de sair da cena pública é mais complicada no caso dos juízes da Suprema Corte porque o posto é para a vida toda.

A vitaliciedade dificulta a renúncia voluntária, principalmente para os que consideram sua posição uma missão divina. A rainha da Inglaterra está com 94 anos e o papa Francisco com 83. Raúl Castro, que provavelmente se considerada mais ungido ainda do que eles, continua a ser o secretário-geral do Partido Comunista Cubano aos 87.

“Deixem que me odeiem, contanto que respeitem minha conduta”, dizia o mais velho dos imperadores romanos, Tibério, que detestava o Senado e a vida em Roma. Na vida particular, em Capri, não tinha nada de respeitável, praticando atos de  licenciosidade tão vil que impressionavam até os romanos.

Tibério morreu aos 77 anos e deixou como herdeiro ninguém menos do que Calígula, o mais cruel e ensandecido dos imperadores romanos – uma concorrência formidável.

Agora, Ruth Bader Ginsburg é acusada pela esquerda de propiciar uma “caligozinha” como substituta, ao presentear Donald Trump com mais um lugar na Suprema Corte, aumentando o peso dos juízes conservadores.

Viver muito – e bem – pode não ser a melhor vingança. Mas pode também propiciar momentos únicos. 

A primeira mulher nomeada para a Suprema Corte, Sandra Day O’Connor, certa vez comentou com a companheira RBG que, se a carreira no direito tão fechada a mulheres quando elas começaram, “hoje seríamos duas advogadas aposentadas; em vez disso, veja onde viemos parar”.

Sandra Day O’Connor aposentou-se da Suprema Corte em 2006, para cuidar do marido com Alzheimer. Hoje, aos 90, também está com demência e não aparece mais em público.

Tendo defendido o direito de um presidente que venerava, Barack Obama, de nomear um juiz para a Suprema Corte mesmo estando no último ano de mandato, Ruth Bader Ginsburg, deixou uma “vontade póstuma” de impedir que o presidente que detestava, Donald Trump, de indicar sua sucessora.

A vaidade obscureceu até a sabedoria que deve ser a única compensação garantida da idade avançada.

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