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Papa argentino: na ânsia de criticar EUA, Francisco confunde líderes

O antiamericanismo infantil anda rolando solto com a retirada do Afeganistão e o papa faz sua própria - e equivocada - contribuição

Por Vilma Gryzinski 2 set 2021, 08h40

Quem confundiria Angela Merkel com Vladimir Putin? Não Jorge Bergoglio, o papa que, como todos os jesuítas, sabe muito bem fazer a lição de casa.

Exceto quando as paixões políticas interferem no bom julgamento – e o papa argentino não tem como negar suas origens no populismo peronista, inerentemente contrário aos princípios das democracias liberais.

Só pode ter sido este o motivo pelo qual o papa Francisco atribuiu à primeira-ministra uma declaração feita por Putin por ocasião de uma visita recente dela a Moscou – a sua última como chefe do governo alemão.

A confusão aconteceu durante uma entrevista a uma rádio católica espanhola. O comentário de Putin foi uma crítica nada sutil ao envolvimento dos Estados Unidos no Afeganistão, encerrado com a vexaminosa retirada às pressas.

“É necessário por fim à política irresponsável de intervenções externas e de construção de democracias em outros países, ignorando as tradições dos povos”, diz a citação reproduzida por Francisco como se fosse de Merkel e elogiada por ele como “lapidar”.

Se não fosse o viés ideológico, Francisco veria perfeitamente que Angela Merkel jamais faria insinuações contra os Estados Unidos – pelo menos sob a administração de Joe Biden – e nunca criticaria a democracia que, como alemã oriental, só foi conhecer depois da queda do Muro de Berlim.

Sem contar que foi a democracia imposta pelos americanos aos inimigos derrotados que permitiu a reconstrução da Alemanha no pós-guerra e, na culminação de um arco histórico, acabou levando à reunificação do país.

Já Putin, intrinsecamente avesso aos princípios democráticos, aproveita qualquer oportunidade para espetar os Estados Unidos. Ontem, ele repetiu as críticas ao capítulo americano no Afeganistão, com mais detalhes (um deles, politicamente incorretíssimo):

“Tropas americanas passaram vinte anos nesse país e, ao longo de vinte anos, tentaram – e isso pode ser dito sem ofender ninguém – civilizar a população local, mas na verdade queriam impor suas normas e seus modos de vida, incluindo a organização política da sociedade”.

“Os únicos resultados foram perdas e tragédias para os que estavam fazendo isso – para os Estados Unidos – e principalmente para o povo que vive no território do Afeganistão. Isso é um resultado de soma zero, se não negativo”.

Como Putin é esperto, já admitiu que a própria Rússia, quando ainda era o coração da União Soviética, aprendeu duras lições no Afeganistão.

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Durante os dez anos de intervenção no Afeganistão, os russos tentaram fazer tudo o que os americanos descobririam, também, ser impossível: estabilizar um governo impopular, equipar seu exército com material bélico de primeira, cooptar a população com ajuda econômica e, quando nada disso deu certo, abrir caminho a uma composição entre forças adversárias.

Na época, o governo era comunista e o Kremlin apostou numa intervenção direta para mantê-lo no poder, ampliando assim sua influência na Ásia Central. Dez anos depois, os últimos soldados soviéticos cruzaram a Ponte da Amizade, a formidavelmente irônica construção entre montanhas do Afeganistão e do Uzbequistão, então uma república soviética.

A guerra do Afeganistão custou mais caro aos russos – quinze mil mortos em dez anos, contra quase seis mil baixas americanas, entre militares e terceirizados, no dobro do tempo. A retirada, ordeira, apesar de ataques de mujahidins armados pelos americanos, foi determinada por Mikhail Gorbachev, o reformista que começou tentando melhorar o sistema comunista e acabou vendo seu desmonte. A União Soviética acabou apenas dois anos depois do fim da experiência fracassada no Afeganistão.

Entre os guerrilheiros inspirados pelo fervor religioso que podiam se orgulhar de ter feito o glorioso Exército Vermelho bater em retirada – da mesma forma que os talibãs hoje sapateiam sobre os símbolos do poder americano -, estavam voluntários de vários países árabes que iriam se reorganizar em torno de um líder carismático chamado Osama Bin Laden.

O insignificante, atrasado e perdido Afeganistão está assim indelevelmente ligado a acontecimentos históricos monumentais, como o fim do comunismo soviético e os atentados do Onze de Setembro, com seus desdobramentos político-militares.

Mesmo conhecendo todas estas complexidades, o papa argentino quis tirar uma casquinha dos americanos, como outros atores menos cotados estão tentando fazer. Acabou dando uma mancada.

Foi mais feliz ao falar com sinceridade sobre a parte mais difícil do confinamento – “Aguentar a mim mesmo. É uma ciência que ainda tenho que terminar de aprender” – e seus recentes problemas de saúde. 

“Nem me passou pela cabeça”, disse sobre a boataria de abdicação, depois da cirurgia em que removeu 33 centímetros do intestino grosso por causa de uma diverticulite séria.

Mas admitiu, de bom humor, que os boatos são naturais. Sempre que um papa fica doente, sopra “uma brisa ou um furacão”, falando sobre sucessão.

Ele também contou como conheceu Jorge Luis Borges porque era amigo de sua secretária e o escritor, a seu convite, deu uma palestra sobre literatura no colégio jesuíta onde era professor.

“Um homem muito bom, muito bom”.

Dá até para imaginar como seria um roteiro sobre os encontros entre o maior de todos os argentinos e o que viria a se tornar o mais conhecido deles. Excluindo-se, claro, Maradona.

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