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Joe Biden não poderá comungar por ser a favor do aborto? Dificilmente

Bispos americanos aprovaram pré-documento que impediria figuras públicas de receber o sacramento, mas é quase impossível que isso aconteça

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 21 jun 2021, 09h55 - Publicado em 21 jun 2021, 08h37

Eunice Shriver, do clã Kennedy, certa vez ouviu de um conhecido importante que deveria escrever um livro sofre a fé do irmão assassinado, John, o primeiro presidente católico dos Estados Unidos. “Seria um volume terrivelmente curto”, ironizou.

Joe Biden, ao contrário, renderia mais assunto. Ele não apenas é católico de ir à missa e comungar, como fala frequentemente sobre a importância da religião em sua vida. Em certos períodos, chegou a considerar a possibilidade de ser padre.

Poderia o segundo presidente católico dos Estados Unidos ser proibido justamente de receber a comunhão, o mais completo ato de união com Cristo?

O assunto surgiu porque a Conferência Nacional dos Bispos dos Estados Unidos aprovou por ampla maioria um documento que abriria caminho, eventualmente, a opção a bispos de vetar a comunhão de políticos que apoiam o aborto.

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O verbo é bem condicional mesmo. O documento ainda teria que ser formalizado, aprovado por dois terços dos bispos e endossado pelo Vaticano. E o Vaticano já mandou dizer que o papa Francisco “não quer usar o acesso à Eucaristia como uma arma política”. Ou seja, deu um cala boca nos bispos conservadores, como tem feito frequentemente.

Mesmo que o documento passasse por todos os crivos, a decisão final caberia ao bispo da diocese envolvida. 

O arcebispo de Washington, Wilton Gregory,  que em novembro passado se tornou o primeiro cardeal negro americano, já disse que prefere seguir o “mantra do papa” e ser “uma igreja de diálogo, mesmo com aqueles com os quais tenhamos algumas divergências sérias”.

Em outras palavras, nem pensar.

Mesmo que continue apenas no campo da teoria, a iniciativa da conferência dos bispos reflete um dos maiores dilemas da Igreja: como absorver adeptos do chamado “bufê religioso”, fieis que se identificam de forma geral com os ensinamentos cristãos ou pelo menos com o aparato ritual, mas escolhem no menu doutrinário o que vai entrar no seu prato.

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Geralmente, por motivos óbvios, são escolhas ligadas à vida social e moral: casar mais de uma vez, usar todos os métodos anticoncepcionais à disposição e, se não tiver outro jeito, fazer um aborto.

Com a diminuição da autoridade moral da Igreja, é possível especular que os “católicos de bufê” são a maioria entre aqueles que não cederam aos apelos da vida sem religião – ou à prática fervorosa dos templos evangélicos -, mas também não aderem rigorosamente aos princípios doutrinais.

A questão do aborto, eticamente complicada mesmo para quem não segue nenhuma religião, é a mais premente. A sacralidade a vida desde sua concepção é uma das bases irremovíveis dos ensinamentos morais da Igreja. Mas mesmo entre o clero, evidentemente, tem altos e baixos.

Os Estados Unidos são o país onde o aborto, legalizado desde 1972, se transformou num dos temas mais fundamentais da Igreja, com uma ala mais conservadora extremamente combativa, sem medo de declarar seus princípios.

Um desses conservadores, Joseph Naumann, arcebispo de Kansas City, declarou no início do ano que o presidente “deveria parar de se definir como católico praticante e reconhecer que sua opinião sobre o aborto é contra o ensinamento moral da Igreja; seria mais honesto da parte dele”.

“Quando ele diz que é católico praticante, nós, bispos, temos a responsabilidade de corrigi-lo. Embora o povo lhe tenha conferido poder e autoridade, ele não pode definir o que é ser católico. O que ele está fazendo é usurpar o papel dos bispos e confundir as pessoas”.

Na verdade, Joe Biden já foi uma vez impedido de comungar, em outubro de 2019, quando ainda era pré-candidato. “Infelizmente, no domingo passado, tive que recusar a Santa Comunhão ao ex-vice-presidente Joe Biden”, disse na época o padre Robert Morey de Florence, na Carolina do Sul.

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“A Santa Comunhão significa que nos tornamos um com Deus e com a Igreja. Nossos atos devem refletir isso. Qualquer figura pública que advogue pelo aborto se coloca fora dos ensinamentos da Igreja”.

Numa Igreja que tantas vezes se dobra para acomodar demandas heterodoxas, mesmo já tendo perdido os anéis e quase todos os dedos, isso é o que os americanos chamam de claridade moral. 

Pode não ser popular nem simpático, mas não fica no meio do caminho, tentando conciliações entre ideias irreconciliáveis. “Quem não está comigo, está contra mim”, diz a mais autorizada das vozes em Mateus 12:30.

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