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Israel: era ruim e ficou pior com conflitos diretos entre árabes e judeus

Ataques entre civis, todos com nacionalidade israelense, são a triste novidade de mais um capítulo do confronto-chave do Oriente Médio

Por Vilma Gryzinski 14 Maio 2021, 07h40

Vista de longe, a atual conflagração entre Israel e o Hamas parece um game: foguetes disparados pelos islamistas radicais que controlam Gaza, em quantidade sem precedentes, cruzam os céus procurando atingir indiscriminadamente alvos civis. 

Com a mesma regularidade, os mísseis do Iron Dome, a Cúpula de Ferro, sistema de defesa antiaérea desenvolvido por Israel com dinheiro americano, são disparados verticalmente e explodem os foguetes inimigos quando já estão em trajetória descendente. 

É preciso ter nervos de aço para não se desesperar com as interceptações proteladas e extraordinariamente bem sucedidas: têm 90% de acerto. Os 10% de erro são responsáveis por um número triste, mas muito baixo, de vítimas em terra. Até hoje, foram nove, incluindo um menininho de seis anos.

A resposta israelense também é conhecida: aviões fazem bombardeios de alta precisão, tendo em mira infraestrutura e líderes do Hamas. Ontem, o QG do serviço de inteligência da organização foi simplesmente demolido, com dezenas de agentes dentro. De ontem para hoje, decorreu “a noite das mil bombas”, tal a intensidade dos ataques aéreos,

Quando o alvo está em prédios civis onde os radicais operam intencionalmente, usando sua própria população como escudo, os moradores são avisados uma hora antes para que deixem os locais. Mesmo assim, há sempre vítimas inocentes. Na atual fase, entre os  118 mortos, foram dezessete crianças.

Tudo isso já foi visto antes, inclusive o potencial agravamento do conflito, com um ataque israelense por terra, o que elevaria o nível da confrontação ao de uma guerra plena, travada, como as anteriores, nas ruas e vielas de uma cidade de alta densidade populacional.

O game changer, o fator que nunca tinha acontecido antes, pelo menos desde a guerra da independência de Israel em 1948, são os protestos e agressões entre judeus e árabes em cidades mistas onde tradicionalmente conviviam.

Para entender melhor a situação, vale lembrar que existem quatro categorias de palestinos: os da Faixa de Gaza, um não-estado onde o Hamas funciona como autoridade administrativa e, obviamente, bélica; os que moram na Cisjordânia, ocupada na guerra defensiva vencida por Israel em 1968, e têm diferentes graus de autonomia, sob o governo da Autoridade Palestina; os moradores de Jerusalém Oriental, com status diferente e direitos parciais,  incluindo acesso aos benefícios sociais dos israelenses, e, por fim, os árabes que não saíram nem foram expulsos de Israel em 1948. 

Estes são cidadãos plenos, com os mesmos direitos que os israelenses judeus. Às vezes são chamados de “árabes de 48″, em referência ao ano da criação de Israel – que deveria ter sido acompanhada de um estado para os palestinos, opção que foi rejeitada por eles e os países árabes, que partiram para a guerra.

São 1,8 milhão de pessoas, numa população total de nove milhões. Moram em cidadezinhas exclusivamente árabes ou nos centros maiores, onde convivem com a população judia.

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Foi nesses lugares que começaram os conflitos que podem ganhar contornos de uma guerra civil. Moradores árabes saíram pelas ruas de Lod, perto de Telavive, atacando vizinhos judeus indiscriminadamente. Queimaram carros, arrebentaram lojas e tentaram incendiar cinco sinagogas, uma violência sinistra que evoca o terrível passado das agressões contra judeus em países europeus, resumidos pela palavra pogrom.

Houve contra-ataques do mesmo quilate, de moradores judeus contra árabes, e a polícia não estava conseguindo controlar o barril de pólvora movido a convocações incendiárias via WhatsApp. 

Os confrontos entre civis se estenderam a outras cidades mistas, como Acre, lendário bastião de resistência da época dos cavaleiros templários. O diretor aposentado do programa espacial Israelense, Avir Har-Even, de 84 anos, ficou gravemente ferido no incêndio de um hotel.

Ver sinagogas atacadas em pleno território israelense tem um terrível poder simbólico e provocou uma resposta pesada do presidente Reuven Rivlin, que tem funções mais cerimoniais e sempre faz gestos inclusivos em direção dos cidadãos árabes.

“As cenas dos pogroms em Lod e os distúrbios ao redor do país produzidos por uma malta árabe sedenta de sangue, ferindo pessoas, danificando propriedades e até atacando um espaço judaico sacrossanto são imperdoáveis”, disse Rivlin.

O Hamas já deu sinais de que está disposto a aceitar uma trégua. Em circunstâncias normais, Israel levaria vários dias para suspender hostilidades, aproveitando para detonar o maior número possível de baterias de foguetes e comandantes militares – sabendo perfeitamente bem que os estoques de ambos serão repostos ou até intensificados, como prova o número recorde de foguetes na atual confrontação.

Nas circunstâncias anormais do momento, com a trágica novidade dos ataques intercomunitários, pode ser do interesse de Israel abreviar a campanha em Gaza para retomar mais rapidamente o controle interno.

Conflitos entre palestinos da Cisjordânia e moradores judeus dos assentamentos em territórios ocupados são frequentes, mas o choque entre cidadãos israelenses das duas etnias introduz um elemento perturbador, de potencial altamente incendiário.

Tudo no conflito em torno da terra tão santa e tão complicada forma um caso extremamente especial,  sem paralelos em outros lugares, desde a reconstituição de Israel depois de dois mil anos da dissolução até o genocídio na Europa que engrossou o movimento sionista, passando pela ambiguidade da situação nacional dos palestinos até que construíssem uma identidade comum, a celebração da violência e a ascensão do islamismo radical. Estes elementos conflitantes tornam extremamente complexa, embora não impossível, uma solução que atenda ao menos em parte as demandas dos dois lados.

O filme que todo mundo já viu em outros países é o túnel escuro e cruel dos conflitos étnicos entre dois grupos que se odeiam e resolvem se destruir mutuamente.

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