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Doutor Fauci ou Doutor Fausto: ele tentou turvar origem do coronavírus?

As dúvidas sobre como a doença chegou aos seres humanos não só demolem a atuação da China como contestam os próprios Estados Unidos

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 8 jun 2021, 11h56 - Publicado em 7 jun 2021, 08h26

E se o governo americano estivesse financiando pesquisas que não podiam ser feitas em território nacional?

E se estas pesquisas envolvessem ganho de função, a manipulação genética para tornar um vírus mais infeccioso e, assim, ser melhor estudado?

E se Anthony Fauci, o venerado epidemiologista americano, soubesse dessas pesquisas e tivesse tentado acobertá-las, temendo que a origem em laboratório de um vírus que já matou 3,5 milhões de pessoas fosse comprovada?

Estas são algumas das questões de tirar o fôlego que estão pululando na maré de novas informações sobre a origem e a disseminação do  Sars-CoV-2.

Entre elas, figuram milhares de e-mails trocados por Fauci com uma série de interlocutores, revelados por força da lei de acesso à informação.

Seria o médico de 80 anos, com vaidade de 18, transformado em figura badalada por se colocar como um contraponto a Donald Trump, uma espécie de Doutor Fausto que faz um pacto mefistofélico para avançar uma área explosiva do conhecimento humano?

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No centro das dúvidas está a atuação de uma organização liderada pelo zoólogo Peter Daszag, a EcoHealth Alliance, que servia como intermediária entre verbas de pesquisas concedidas por órgãos do governo americano.

Segundo uma minuciosa reconstrução de Katherine Eban na revista Vanity Fair, grupos diferentes de cientistas independentes  e de investigadores do Departamento de Estado levantaram pacientemente o destino específico de duas dessas verbas.

O dinheiro foi destinado a Shi Zhengli, a “mulher-morcego” do Instituto de Virologia de Wuhan, no centro das suspeitas de abrigar o laboratório de onde, segundo a hipótese que ganha corpo agora, poderia ter escapado provavelmente por acidente vírus que tanta destruição continua a causar no mundo.

São verbas pequenas. Uma, de 665 mil dólares, veio do National Institutes of Health, NIH, o órgão ao qual Tony Fauci é ligado. Outra, de 559 mil, veio da USAID, a agência americana de cooperação internacional.

Quando a hipótese do “vazamento” foi levantada pela primeira vez, logo no começo da pandemia, Fauci se opôs a ela – e recebeu um e-mail agradecido de Peter Daszag.

Foi Daszag também quem escreveu e fez lobby para que cientistas conhecidos assinassem uma carta publicada na The Lancet que se tornou o paradigma mundial para desacreditar a possibilidade de origem em laboratório do vírus.

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É esse consenso que vem sendo desarticulado – embora obviamente só haja até agora evidências circunstanciais, muitas delas, segundo a reportagem da Vanity Fair, indicando que existiam na comunidade científica “conflitos de interesse provenientes em parte das verbas do governo americano  em apoio a pesquisas controvertidas de virologia”.

As pesquisas envolvendo ganho de função são tão perigosas que houve uma moratória em sua realização decretada em 2014, durante o governo de Barack Obama.

A moratória foi revertida. As pesquisas envolvendo vírus “turbinados” vinham sendo feitas em laboratórios de três lugares do mundo: Galveston, no Texas;  Chapel Hill, na Carolina do Norte, e Wuhan.

Tony Fauci nega categoricamente que o dinheiro do NIH tenha sido usado em pesquisas de ganho de função feitas pela virologista Shi Zhengli. Ela própria já jurou “por minha vida” que o vírus não saiu de seu laboratório – e acrescentou, nada distanciadamente, que dava “um conselho aos que espalham boatos: calem suas bocas imundas”.

Diante do ressurgimento, com fontes dignas de crédito, da hipótese do acidente de laboratório como origem da pandemia de Covid-19, Joe Biden deu na semana passada um prazo de noventa dias aos serviços de inteligência para que apresentem resultados mais conclusivos – a comunidade, supostamente, está dividida sobre o assunto.

Não existe nada no mundo que se compare à capacidade dos americanos de conseguir informações, embora, como tudo, ela também tenha um limite – e também obedeça a interesses políticos.

Seria do interesse do governo americano comprovar que o vírus se originou num laboratório chinês, que recebeu fundos de órgãos do governo, com a fúria e a revolta da opinião pública que isso implicaria?

A ordem mundial sofreria uma pancada violenta se acontecesse algo assim. A revolta atingiria não apenas a China, mas a própria ciência. O doutor Fauci se transformaria num exemplo máximo de execração pública.

O medo do pacto faustiano, da alma vendida em troca de um grande conhecimento, acentuou-se aceleradamente desde a fissão do átomo e caminha para novas fronteiras com a era da inteligência artificial.

Comparativamente, é até pouco “fazer” um coronavírus com espículas mais adaptadas a penetrar nos receptores humanos.

Conseguiremos saber, com razoável dose de certeza, qual a origem do vírus? Ainda não existem respostas taxativas. Depois que o gênio saiu da garrafa e a hipótese do vazamento proveniente do Instituto de Virologia de Wuhan passou a ser seriamente considerada, também começou a circular a versão de que os próprios serviços de inteligência americanos não se entendem a respeito.

Segundo uma dessas versões, a CIA não sabia que existe um “desertor” chinês que está abastecendo de informações a DIA, a Agência de Inteligência de Defesa. Verdade ou invenção?

O roteiro da série da vida real fica cada vez mais complicado.

“Estou dormindo quatro horas por noite”, disse Fauci ao Financial Times. Ele continua a responder emails de madrugada. E tem cada vez mais gente interessada em saber o que ele sabia, e quando.

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