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Diferenças: Maduro toma um jornal e Israel bombardeia prédio da mídia

Hamas usava edifício em Gaza como um de seus centros de operações terroristas; jornal venezuelano não terá segunda chance

Por Vilma Gryzinski 17 Maio 2021, 08h22

Seria grotesco se não fosse verdade: Diosdado Cabello disse que vai criar uma faculdade de jornalismo na sede do jornal El Nacional, desapropriada por ordem de um Supremo Tribunal totalmente aparelhado pelo regime venezuelano.

Motivo: o jornal não tem 13,2 milhões de dólares, a quantia de uma indenização por danos morais a Cabello, o segundo homem – alguns acreditam que o primeiro – mais poderoso da Venezuela.

É claro que a quantia absurda tem o objetivo de detonar o pouco que ainda resta de independência da imprensa venezuelana.

Cabello quer ser indenizado por causa de uma reportagem onde é acusado de narcotráfico, uma atividade que vicejou extraordinariamente na Venezuela chavista e pela qual o capitão chavista foi indiciado nos Estados Unidos.

Nicolás Maduro vai entregar o jornal ao número dois “para seu usufruto pessoal”, segundo definiu o dono do El Nacional, disse Miguel Henrique Otero, exilado na Espanha. Cabello tem um programa de televisão chamado Descendo o Porrete, no qual defende a linha mais dura do regime.

Segundo a visão de Otero, “Maduro tem os ministros e os cubanos e as FARC e o ELN, mas quem tem o poder real é Cabello”

Ele vê até um possível racha num momento em que Maduro negocia um vago tipo de acordo político com a oposição, através do governo esquerdista da Espanha. Talvez seja mas uma expressão de desejo do que realidade. 

As figuras-chave do regime sabem que não podem lutar entre isso porque não têm para onde correr se a ditadura desabar. Cuba não é exatamente uma opção entusiasmante para quem estava acostumado com Miami.

A tomada do El Nacional foi comparada, em termos de violações à liberdade de imprensa, ao ataque israelense ao edifício em Gaza onde funcionavam as sucursais da agência de notícias AP e da televisão Al Jazeera, do Catar.

É uma comparação errada. Por mais erros que se queira atribuir a Israel, certamente não se pode incluir o de pretender “calar” a cobertura agressiva na atual fase de guerra aérea em Gaza. Israel tem mais sofisticação do que isso.

O bombardeio cirúrgico do prédio Al Jala foi avisado com uma hora de antecedência, dando tempo a seus ocupantes para que saíssem, levando os equipamentos que pudessem carregar. Um drone também fez uma pequena explosão no topo do prédio, avisando sobre o que iria acontecer.

O governo israelense disse que apresentou aos Estados Unidos a prova definitiva, o “revólver fumegante”, comprovando que o Hamas usava o edifício como centro operacional do seu serviço de inteligência, tornando-o assim um alvo legítimo.

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É possível confiar nessa informação? 

Como qualquer país, Israel trava uma guerra de propaganda, onde planta suas versões, mas é difícil imaginar que pretenda enganar os americanos, donos de todos os meios disponíveis para saber se uma informação desse tipo é verdadeira ou fabricada.

“Vou repetir o que já disse sobre o que havia no edifício: uma unidade de pesquisa e desenvolvimento do Hamas, inteligência militar do Hamas e escritórios da Jihad Islâmica Palestina”, afirmou o porta-voz militar Hidai Zilberman.

Curiosamente, um artigo escrito em 2014 para a revista The Atlantic pelo jornalista Matti Friedman traz uma informação extraordinária.

Friedman, que trabalhou cinco anos para a AP e tem uma visão crítica da cobertura da agência, por causa do viés anti-israelense, conta que os jornalistas da sucursal em Gaza, todos palestinos, eram suscetíveis a pressões e não noticiavam a política de intimidação do Hamas.

“A equipe da AP na Cidade de Gaza presenciava o lançamento de foguetes disparados bem atrás da sucursal, colocando em risco os repórteres e civis das imediações, e a AP não noticiava isso”, escreveu Friedman sobre eventos da guerra de 2014. 

Ele também anotou o silêncio da agência quando militantes do Hamas invadiram a sucursal para “reclamar” de uma foto que mostrava uma base de lançamento de foguetes em outra região. E da maneira como fotógrafos e cinegrafistas registravam a chegada de civis feridos ao hospital principal de Gaza, mas baixavam as câmeras quando chegavam os combatentes armados, praticando a autocensura como forma de poder continuar na cobertura.

O artigo de Friedman se transformou num relato de importância histórica por indicar uma realidade existente há muitos anos.

Ver uma sucursal jornalística desaparecer num prédio bombardeado é uma cena brutal e certamente motivo para o presidente da AP, Gary Pruitt, se declarar “chocado e horrorizado”. Infelizmente, não pode dizer que foi uma surpresa. 

AP, Al Jazeera e a organização Repórteres sem Fronteiras pediram uma investigação internacional. Sally Buzbee, que está deixando o comando da AP para ser diretora de redação do Washington Post, disse que Israel não mostrou provas do funcionamento de um organismo do Hamas no prédio destruído e que, em quinze anos, nunca houve indícios disso.

É impossível fazer uma investigação independente em Gaza, diante do poder de intimidação do Hamas, mas com tantos jornalistas envolvidos, muita coisa será apurada paralelamente. Em algum momento, a verdade vai aparecer. 

E não vai ser através da “faculdade de jornalismo” de Diosdado Cabello.

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