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Chato, esnobe, carola, reacionário: um político inglês diferente

Até num país com grande tradição satírica, seria difícil enfrentar alguém como Rees-Mogg, um conservador à direita de seu próprio partido

Por Vilma Gryzinski - 6 out 2017, 10h12

Quem vai entrar no lugar da primeira-ministra Theresa May? A pergunta pode ser respondida em questão de dias ou de meses: o consenso geral é de que ela entrou num caminho sem volta.

A questão será decidida entre os mais influentes do Partido Conservador, com base no princípio da autopreservação. Se dependesse dos menos influentes, o escolhido seria Jacob Rees-Mogg.

Pelo menos, segundo uma “consulta informal” feita durante a convenção do partido. Para tristeza de Boris Johnson, que trama continuamente para ser o substituto de Theresa May, Rees-Mogg o superou amplamente na categoria político excêntrico e foi o mais disputado pelo público.

A maior excentricidade dele é não fingir ser o que não é. E exagerar ao ponto da caricatura o que é, uma característica de figuras políticas do novo populismo, de esquerda ou direita, que apelam ao eleitorado pela autenticidade, seja ela verdadeira, construída ou uma mistura de ambos.

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CAMPANHA DE MERCEDES

Desde o sobrenome duplo, unido por hífen, ao modo de falar e se vestir, Rees-Mogg tem todos os maneirismos associados aos personagens da classe alta e da aristocracia retratados em séries como Downton Abbey.

Conservador que está à direita do próprio Partido Conservador e católico tradicionalista que é tão contra o aborto que foi tirado por um arcebispo da direção de um hospital da Igreja, ele explora o anacronismo com teatralidade e senso humor.

Estreou no Twitter com uma frase em latim e nega ter feito campanha para o Parlamento em companhia da babá num Bentley de sua coleção de carros antigos. Era um Mercedes, diz.

A babá continua a trabalhar com a família dele. E que família: são seis filhos, todos com nomes absurdamente esnobes, como Alfred Wulfric Leyson Pius. O mais novo, como compete à ordem numérica, é Sixtus Dominic Boniface Christopher.

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Filho de um jornalista famoso que foi diretor do Times e ganhou o título de barão, Wiiliam Rees-Mogg, ele passou os fins de semana da infância num lugar que as classes altas chamam de “casa de campo” e o resto da humanidade acha que é um castelo.

 

Estudou no circuito tradicional, Eton e Oxford, e ganhou dinheiro no lugar de sempre: o mercado financeiro. Usa a polidez e os maneirismos antiquados para desarmar os militantes de esquerda que, obviamente, atrai por toda parte.

Na convenção do Partido Conservador, desceu do palanque e foi falar com um, a quem perguntou com na maior fleuma em que divergiam. Num diálogo maravilhosamente inglês, o militante disse que em tudo e fulminou: “Você é uma pessoa desprezível”.

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“Bem, nós podemos discordar sobre coisas, mas o fato de discordar de alguém não torna esse alguém uma má pessoa. São fatos separados”, respondeu Rees-Mogg.

Claro que nesse tipo de diálogo ninguém espera convencer ninguém, mas rende a Rees-Mogg a imagem de político imperturbável e ao mesmo tempo acessível.

Na Inglaterra, onde os diferentes modos de falar permitem identificar exatamente a origem social, ele acaba projetando a figura de político diferente, um ricão aberto a falar com todo mundo sem tentar se passar por “homem do povo”.

Boris Johnson, o ex-prefeito de Londres e atual ministro das Relações Exteriores que antes ocupava a categoria esquisitão de casta superior com jeito de falar da elite aristocrática, foi amplamente superado por Rees-Mogg em seu próprio jogo.

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ATAQUE DE TOSSE

Pode ser que façam uma aliança contra David Davis na corrida para aposentar Theresa May. Derrubada pela própria ambição, ao convocar uma eleição geral na qual esperava sair fortalecida e saiu surrada, May entrou em parafuso.

Tudo que ela faz dá errado, passa imagem de fraqueza, indecisão e solidão. Impressões confirmadas por palavras e percepções sobre o discurso que mal conseguiu terminar na convenção do partido.

Convulsionada por um ataque de tosse que evocou a imagem nada animadora de Hillary Clinton, precisou enfrentar o trote de um comediante infiltrado. Quando as letras no painel ao fundo caíram, teve gente que falou até em sabotagem.

Se os conservadores não saírem do buraco, com ou mais provavelmente sem Theresa May, abrirão espaço para o impensável: uma vitória de Jeremy Corbyn e suas ideias de um esquerdismo tão arcaico que parece ser a imagem invertida de Jacob Rees-Mogg.

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Entre elas, renacionalizar o sistema ferroviário, universidade grátis para todos e, claro, acabar com qualquer conceito de responsabilidade fiscal.

De certa maneira, Corbyn e Rees-Mogg encarnam as ideias mais extremistas de seus respectivos partidos e fazem sucesso exatamente por causa disso.

A polarização política é um fenômeno atual que ajuda a entender desde a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos até o nacionalismo embriagado dos separatistas na Catalunha.

Cada vez que Jacob Rees-Mogg diz ou fala alguma coisa absurdamente anacrônica ou esnobe, os memes explodem nas redes.

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Um exemplo, sério e engraçado ao mesmo tempo, sobre uma de suas principais convicções políticas: “Basicamente, quero que as pessoas toquem a vida sem ficar recebendo intrusões do governo o tempo todo. sou totalmente a favor das babás, mas não do estado-babá.”

Quem não fica com vontade de fazer um meme?

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